
Série Diablon
Capítulo 2
O pai dela mantinha a cabeça baixa enquanto comia seu mingau com uma colher. Estava perdendo o cabelo e suas costas eram curvadas. Parecia mais velho a cada dia. Trabalhar nas docas fazia isso com uma pessoa.
Lilitha olhou para as próprias mãos. Já tinha terminado sua pequena porção de comida — sua única refeição do dia. Seus dedos tremiam.
O pai ergueu a tigela até a boca e bebeu o resto do leite. Lambeu os lábios e fez um som satisfeito. Lilitha rapidamente baixou o olhar quando ele olhou para ela.
Lá fora, um trovão ecoou alto. A chuva bateu com força na janela. Estava escuro dentro da casa. Nenhuma vela acesa. Nenhum fogo na lareira. Eles não tinham dinheiro para isso.
“Por que você está tão nervosa?” ele perguntou.
“Não estou nervosa.”
A cadeira rangeu quando ele se recostou. “Não minta para mim. O que você andou fazendo?”
“Eu já disse: fui às compras e voltei direto para casa. Como sempre faço.”
Ela ergueu o olhar para ele. Seus olhos escuros eram fendas finas. Ele estava franzindo a testa. Houve silêncio por vários longos momentos. Então ele soltou o ar. A cadeira raspou contra o chão quando ele se levantou.
Lilitha manteve o rosto baixo. Seu cabelo ruivo caiu ao redor dela enquanto ele caminhava até o casaco pendurado na parede.
Seu coração batia forte contra o peito. Os pelos dos braços se arrepiaram. Ela tremeu mais forte ao som do cinto dele deslizando pelas argolas do casaco.
“Pai” ela disse baixinho. “Por favor.”
“Não implore. Eu odeio quando você implora. Você sabe o que acontece. De joelhos.”
Ela mordeu o lábio com força suficiente para sentir gosto de sangue. Lilitha não lutou enquanto levantava as saias.
As primeiras pancadas eram sempre as piores, mas ela teve o cuidado de ficar quieta. Fazer barulho só o deixava mais furioso.
Ela podia ouvir o som horrível do couro batendo nela, mas logo não conseguia ouvir nada além do sangue correndo em seus ouvidos.
Depois da décima pancada, seu traseiro estava começando a ficar duro como pedra. A dor se espalhava por todo o corpo, nos joelhos, quadris e coxas, subindo pelas costas. Ela até conseguia sentir latejamento na cabeça.
A cada pancada, Lilitha se jogava para frente sem fazer um som. Estava segurando as saias com tanta força que suas mãos pareciam garras. Estavam tão dormentes que pareciam mãos de outra pessoa.
Amanhã, elas doeriam. Tudo doeria. Ela sentiria dor por dias.
Finalmente, ele terminou. Sem dizer nada, ele se afastou e pendurou o cinto. O chão rangeu enquanto ele caminhava até o quarto.
Só depois que ele se foi Lilitha se permitiu cair no chão. Ela se encolheu de lado e fechou os olhos.
Quando acordou, era manhã. Estava quieto. Luz vermelha brilhava através da janela. Uma manhã ensolarada rara. Ela não conseguia ouvir o pai roncando. Ele já tinha ido trabalhar.
Estava tão cansada que nem tinha ouvido ele saindo. Ela gemeu baixinho e se levantou. Agarrou a cabeça e reprimiu a vontade de gritar.
Depois de várias tentativas dolorosas, conseguiu ficar de pé. Caminhou devagar para olhar dentro do quarto dele — estava vazio. A cama estava bagunçada e roupas estavam jogadas no chão.
Ela caminhou até o espelho quebrado e se ajoelhou na frente dele com um gemido. Levantou as saias e se olhou. Era a pior surra até agora. Marcas salientes. Hematomas escuros.
Ela também tinha sangrado muito. Estava tudo sobre as saias. Devagar, ela se tocou. Como sempre, a dor era pior logo acima da fenda, onde estava sua feia cicatriz vermelha.
Ela abaixou as saias e soltou o ar. Não havia tempo para pensar nisso. Não havia dinheiro para comprar remédio. O pai nunca gastaria dinheiro com ela de qualquer forma.
Aos dezenove anos, tinha sorte de ele ainda não tê-la vendido.
Ela se levantou.
Mais um dia. Mais tarefas a fazer. Mas pelo menos não estava chovendo. Ela olhou pela janela, pensando em Clara. Sentiu um aperto no estômago.
Desejou que ontem tivesse sido apenas um sonho. Pegou a cesta e saiu para o mercado.
Foi uma hora antes de ela entrar na rua lotada de sempre. Com o capuz puxado bem baixo sobre o rosto, Lilitha manteve os olhos baixos.
Tentou o melhor possível não mancar, mas a cada dois passos, a dor atravessava seu traseiro. Mesmo que sua vida parecesse ter mudado tanto, o resto da cidade seguia com seu dia como sempre.
A manhã ensolarada não tinha durado muito. Nuvens pairavam baixas e um vento frio bateu em seu rosto enquanto ela ia de barraca em barraca.
Sua cesta estava cheia de suprimentos. Lilitha estava olhando alguns rabanetes murchos quando ouviu o nome de Mandalay.
Uma comerciante e sua cliente estavam inclinadas uma em direção à outra do outro lado do balcão tendo uma conversa baixa.
“Você está brincando!” a cliente disse em um sussurro, pressionando os dedos longos e finos contra a boca. “Como ele ficou ferido?”
A comerciante deu de ombros. “Ninguém realmente sabe, mas as pessoas estão dizendo que ele pode até estar morto.”
“Com certeza não!” a mulher exclamou. A comerciante mandou ela ficar quieta. A cliente fechou os lábios e se inclinou mais perto, olhos brilhantes. “E quem fez isso?”
“Bem, sobre isso — garotas. Duas garotas foram vistas com ele pouco antes de ele ser encontrado.”
“Garotas? Garotas atacaram Sir Mandalay? Nunca!” Ela se afastou e balançou a cabeça.
“O que esta cidade está se tornando quando nem as pessoas mais fortes conseguem se proteger de tanta maldade? Garotas.” Ela pegou a cesta e saiu.
Lilitha terminou de escolher seus vegetais e caminhou até a comerciante. A mulher limpou os olhos enquanto cobrava dez açafrões.
“Eu estava ouvindo a conversa de vocês” Lilitha disse, entregando o dinheiro.
A mulher lhe deu um olhar irritado. “E daí?”
“E daí que eu estava me perguntando se eles tinham alguma ideia de quem essas garotas poderiam ser.”
“Se tivessem, já teriam capturado elas até agora, você não acha?”
“Suponho que sim.” Lilitha colocou a cesta sobre o ombro.
Começou sua longa caminhada de volta para casa, olhos fixos no chão. O peso das compras fazia suas costas doerem. O frio estava fazendo a ponta do nariz parecer gelo.
Ela virou uma esquina e olhou para cima ao som de barulho. Um Champion estava sentado em um cavalo à frente. Um grupo de pessoas o cercava. Ele estava segurando uma folha de papel para eles verem.
Seu coração bateu rápido. Lilitha puxou o capuz ainda mais sobre a cabeça e caminhou por outra rua. Mas encontrou outro Champion lá.
Ela se curvou e caminhou bem longe dele. Estava prestes a virar na próxima rua quando ele chamou: “Senhora! Senhora!”
Lilitha fez uma careta e ajeitou o capuz. Virou-se enquanto ele e seu alto cavalo cinza vinham até ela. Ele sentava um pouco estranhamente na sela. Suas bochechas estavam rosa brilhante no ar gelado.
“Desculpe incomodá-la, senhorita, mas estamos procurando duas criminosas. Se você pudesse olhar isto...”
Ele estendeu uma folha de papel. Os olhos de Lilitha se arregalaram.
“Meu Deus” ela disse baixinho.
Olhos tão verdes quanto os dela olhavam de volta para ela. O desenho parecia muito com ela. Quem quer que a tivesse desenhado a capturou perfeitamente, até a pequena pinta no canto do lábio.
O desenho de Clara também era muito bom, mas não tão perfeito quanto o dela.
“Você conhece alguma delas? Já as viu antes?” Ele se inclinou sobre o cavalo, animado com a reação dela. Ela balançou a cabeça rapidamente.
Ele se recostou na sela com uma careta desapontada e pegou o desenho de volta. “Obrigado mesmo assim. Se você vir alguma delas, poderia avisar um Champion ou o ministro mais próximo?”
Lilitha estava tremendo enquanto o observava cavalgar para longe.
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