
Série Diablon Livro 3
Author
G. M. Marks
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Chapters
24
Capítulo 45
Livro 3
Lilitha continuou sem derramar uma lágrima. Seu rosto estava sério enquanto seguiam viagem no dia seguinte. Raios de luz atravessavam as copas das árvores. Eram quentes e brilhantes, forçando as garotas a tirarem suas capas.
Clara apertou os olhos. “O que é isso?”
Lilitha segurou seu colar num susto. “Nada.” Ela o abriu e o escondeu em sua capa.
O caminho para fora da floresta estava sendo muito mais fácil do que a jornada para dentro. E não era só porque elas não estavam mais algemadas, acorrentadas e apavoradas. Não chovia há dias. Acabaram-se as poças fundas e a lama grossa.
Sem falar que Lilitha havia desenvolvido muito mais habilidade para evitar os piores obstáculos. Ela conseguia sentir as coisas agora, como se fossem sombras cruzando a sua visão.
Lilitha ergueu o rosto para as árvores. Ela piscou contra a claridade, gostando do calor nos ombros. Um pássaro estava cantando. Como ela poderia ser uma “criatura da noite” se gostava tanto do sol?
Clara frequentemente pegava a bússola para verificar a rota. Elas abriram caminho por um labirinto de arbustos. Um pássaro cantava em algum lugar no alto das árvores.
“Sabe, em todas as vezes que conversamos sobre a sua fuga para Mainstry”, disse Lilitha, “nós nunca discutimos os seus planos para quando chegasse lá. O que você espera fazer?”
Clara deu de ombros. “Eu dou um jeito.”
“Você esperava voltar para casa?”
Clara olhou para ela e desviou o olhar novamente. Seu rosto estava contorcido de tristeza.
“Desculpe”, Lilitha disse baixinho.
“Não é sua culpa.” Clara olhava fixamente por entre as árvores. “Minha mãe vai dar um jeito. É muito perigoso voltar para casa.”
“Então, qual era o seu plano?”
“Você não precisa saber.”
“Por que não?”
Os olhos azuis de Clara brilharam ao encontrar os dela. “Você tem os seus segredos. Eu tenho os meus.”
E esse foi o fim da discussão.
Elas não pararam para almoçar. Foram juntando comida pelo caminho: frutas, nozes e cogumelos. Lilitha, é claro, não podia comê-los. Ela precisaria encontrar comida de verdade, e logo. Ela já conseguia sentir isso. Era um formigamento nas pontas dos dedos e um peso nos ombros.
Ela bocejou enquanto passava os dedos pelos cabelos. Não ajudava em nada o fato de estar acordada quando deveria estar dormindo. Dois dias. Faltavam dois dias até Mainstry. Talvez três.
No pôr do sol, elas acamparam e se ajeitaram para passar a noite. Clara ficou encolhida bem perto de Lilitha enquanto olhava com medo para as árvores. Lilitha não podia culpá-la. A cada barulho ou rangido, sua amiga prendia a respiração e virava a cabeça rapidamente.
Lilitha não estava muito melhor. O pavor apertava o seu coração. Se Damon e Mateus as alcançassem, o que eles fariam? Alfas nunca machucam fêmeas... Mas será que esse seria o caso agora? Ao pensar em Damon e em seus ataques de fúria, Lilitha estremeceu.
Ela pensou em fazer uma fogueira só para se sentir melhor, mas decidiu não fazer isso. Embora os dois alfas provavelmente ainda estivessem perseguindo suas fugitivas humanas, por que arriscar mais? Lilitha se enrolou com mais força em sua capa. Pelo menos havia o luar. A luz brilhava nos olhos de Clara.
“Algo errado?” perguntou Lilitha, percebendo que sua amiga a observava.
“Você parece triste.”
“Pareço?”
“Você sente falta deles, não sente?”
Lilitha levantou a cabeça bruscamente. “De quem?”
“Você sabe de quem. Dos monstros.”
A boca de Lilitha ficou seca. “Claro que não. Eles são monstros.”
Clara a observou com atenção. “Você também é um monstro, não é?”
Lilitha se levantou de um pulo. Arrepios tomaram conta de todo o seu corpo. Ela não sabia para onde olhar enquanto Clara a encarava de baixo, estranhamente calma. A voz de Damon de repente surgiu do vazio: Revele a verdade do que você realmente é e veja-a fugir como um rato.
“Fale comigo, Lilitha. Eu sou sua amiga.”
Lilitha olhou para ela. “Você é?”
Clara confirmou com a cabeça.
“Quanto... quanto você sabe? Como você sabe?”
Seu coração deu um pequeno salto quando Clara sorriu para ela de forma irônica. “Eu não sou idiota, Lilitha. Qualquer um saberia.” Então ela franziu a testa. “Você é... você é totalmente como eles?”
Colocando as mãos na cabeça, Lilitha andou de um lado para o outro. Folhas e galhos estalavam debaixo de suas botas. Ela cruzou os braços, soltou-os ao lado do corpo e os cruzou de novo.
“Lilitha?”
Lilitha parou de andar. “Você tem medo de mim?”
“Não.” Os olhos de Clara estavam brilhantes. “O que são... eles?”
“Eles se chamam de Diablons.”
“Diablons...” Ela balançou a cabeça. “O que isso significa?”
“Eu não tenho certeza. Feras, monstros, demônios da noite.”
Os olhos de Clara brilharam ao luar. “Eles... eles comem pessoas?”
A careta de Lilitha foi uma resposta suficiente.
Clara ficou em silêncio. “Eles são maus, desprezíveis.”
Lilitha sentiu uma onda de raiva. “Você tem tanta certeza disso?”
“O que mais eles poderiam ser?”
“Eu sou como eles. Você me acha má?”
“Você não é como eles.”
“Não sou?” Lilitha olhou feio para ela. “Eu vi coisas, fiz coisas...” Ela fez uma careta. “... Coisas nas quais nem eu mesma consigo acreditar.”
“O que você fez?”
“Você quer respostas, então responda à minha pergunta. Qual é o seu plano em Mainstry?”
“Trabalhar.”
“Obviamente. Como?”
“Com a minha aparência, Lilitha. O que mais?” Agora era Clara quem estava com raiva.
“Você quer dizer...”
“O que mais eu posso fazer? Sendo uma mulher ‘inútil’ e com poucas habilidades?”
Lilitha a encarou. O cabelo loiro dela, seus traços finos, sua pele macia, seus magníficos olhos azuis. Embora ela estivesse suja e bagunçada agora, manchada de terra, com o cabelo embaraçado e oleoso, não dava para negar a beleza debaixo de tudo aquilo.
Lilitha sentiu uma pontada profunda de ódio por si mesma. O plano dela tinha sido simplesmente deixar Clara seguir sozinha. Por um momento breve e louco, ela se perguntou se tinha sido mesmo uma boa ideia abandonar os Diablons.
“Eu posso cuidar de mim mesma”, disse Clara, observando-a. “Eu não sou responsabilidade sua.” De repente, ela abriu um sorriso e apontou o dedo para ela. “Eu sou a mais velha.”
Um sorriso triste apareceu nos cantos da boca de Lilitha.
“Sua vez”, disse Clara, e o sorriso de Lilitha sumiu. “O que você fez?”
“O que você acha?”
“Pare de brincar comigo.”
“Está bem! Está bem. Eu... eu comi pessoas, ok. Isso mesmo: pessoas. Eu segurei a carne delas nas minhas mãos. Eu vi os corpos delas. Eu as vi presas. Eu vi o sofrimento delas e não fiz nada a respeito. Lembra do Laymond...?”
Lilitha estava tremendo tanto que enfiou as mãos debaixo dos braços. “Você tem razão. Eu sou um monstro.” As lágrimas queimavam em seus olhos. “Meu pai estava certo. E eu não sei o que fazer sobre isso. Eu os amo, Clara. Não importa o que eles tenham feito, eu os amo demais. Você não sabe. Você não sabe...” Segurando o peito, ela se curvou e soltou um gemido.
“Mas você está aqui agora, comigo”, disse Clara. “Um monstro não faria isso.”
“Você acha que eu sou má?”
Clara olhou firmemente para ela. “Não. O que quer que você fosse antes, você não é mais.”
Lilitha enxugou o rosto.
Clara se deitou longe de Lilitha naquela noite. Enquanto ela dormia, Lilitha ficava olhando para o alto das árvores, com as mãos descansando sobre o coração.














































