
Série Perigo à Espreita: Iris
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Capítulo 1
Livro 4: Iris
A floresta costumava ser o meu refúgio, um lugar onde eu me sentia em paz. O vento tocando a minha pele, as árvores bem verdes ao meu redor... era uma sensação maravilhosa. Mas hoje, eu não conseguia curtir a beleza da minha casa. Eu estava fugindo dela.
Eu estava deixando para trás tudo o que eu amava. Hoje, eu estava virando o que sempre odiei. Eu estava me tornando uma desgarrada. Eu não tinha casa, nem amigos, nem amor.
Amor. Essa palavra significava muito para mim. Doeu muito deixar isso para trás. O amor me trouxe até aqui: a tanto ódio e a tanta traição. O Alexander era tudo para mim, mas agora ele era a minha ruína. Ele escolheu a garota de cabelos pretos em vez de mim. Eu prometi voltar e destruir todos eles.
Atrás de mim, eu podia ouvir a guerra que eu tinha começado. Havia tanta morte, tanto sangue. Era isso que eu queria, mas não era para terminar assim. Os sons foram sumindo enquanto eu pulava de árvore em árvore, para garantir que ninguém pudesse me seguir. Os lobisomens eram ótimos caçadores, então as árvores eram um esconderijo perfeito. Eu me movi muito rápido para esconder o meu cheiro. E, mesmo me cobrindo de lama, eu sabia que todo cuidado era pouco.
Eu senti a minha ligação com a matilha se quebrar quando entrei em outro território. Eu era uma desgarrada agora, uma excluída, uma ameaça para qualquer outro lugar onde eu entrasse. Mas eu ainda estava perto o bastante para ser caçada, então continuei correndo.
Houve um tempo em que acreditei que sempre seria amada e cuidada. Achei que a minha beleza seria o bastante para ele nunca me deixar. Eu era muito mais do que aquela garota de cabelos pretos por quem ele se apaixonou. Mas acho que me enganei sobre ele e sobre a força da ligação de companheiros.
Eu dei uma risada amarga enquanto mastigava a carne crua de um cervo que eu tinha caçado. Eu provavelmente parecia uma desgarrada comum agora, com as minhas roupas rasgadas e destruídas. O meu cabelo, que normalmente era de um vermelho vivo, estava coberto de lama e parecia marrom. E a minha pele estava imunda.
Eu fechei os meus olhos enquanto descansava no galho mais alto de um baobá. Eu precisava ir para bem longe, para que eles não me achassem, o que significava cruzar as Terras Mortas. Poucos sobreviviam lá, mas, por outro lado, eu não era exatamente humana. Eu deixei o cansaço tomar conta até que eu só visse a escuridão.
Eu acordei com o som dos pássaros cantando. Pulei do galho, deixando o meu corpo cair no chão. Eu pousei perfeitamente e cheirei o ar, para ter certeza de que eu era a única não humana por ali.
Eu levei cerca de sete horas e meia para chegar às Terras Mortas. Para um humano normal, isso levaria de três a quatro dias, ou até uma semana com paradas para descanso. O lugar foi fácil de achar, e eu já o odiava. Era um deserto de verdade, com um sol forte e quente.
Eu respirei fundo ao sair da floresta e entrar nas Terras Mortas. Eu sabia que estava exposta e frágil a qualquer perigo que aparecesse. Mas esses perigos eram melhores do que os que eu tinha deixado para trás. Eu era uma líder nata, nascida pronta para enfrentar qualquer desafio.
O calor do chão entrava nas minhas botas, fazendo parecer que eu estava andando sobre brasas quentes. Não é à toa que os humanos morriam antes de chegar a qualquer lugar por aqui. Eu não tinha outra escolha a não ser andar: correr faria com que eu ficasse desidratada muito rápido.
No começo, eu tinha esperança. Talvez eu pudesse encontrar água aqui. Mas a areia vermelha não tinha fim. Eu nunca tinha odiado tanto a cor vermelha. Aquilo estava me deixando louca. Eu não conseguia acreditar que tinha fugido para salvar a minha vida, apenas para acabar morrendo de sede. Eu caí de joelhos, sem conseguir continuar. As Terras Mortas eram piores do que um deserto. Era um verdadeiro inferno.
Mas eu não ia desistir tão fácil assim. Eu me levantei, respirei fundo e engoli em seco. Eu precisava ficar viva para a minha vingança. As minhas pernas pareciam gelatina de tão fracas, mas eu me forcei a dar mais um passo. Não tinha como voltar atrás.
Pareceu uma eternidade enquanto eu caminhava com dificuldade. A minha pele estava queimada de sol e doía para caramba. Eu estava fraca demais para me curar direito. Este não era o lugar para um lobisomem. Eu me arrependi de não ter pensado melhor sobre isso, mas já era tarde demais para voltar. Eu apenas me perderia. Uma vez nas Terras Mortas, não tem mais volta. Essa era uma regra que eu conhecia. Daqui para frente, tudo parecia igual. O único caminho era seguir em frente.
A minha pele estava muito seca, os meus lábios estavam rachados e doloridos. Tirei a minha blusa rasgada e a joguei de lado. O pano estava raspando na minha pele queimada de sol. Eu tossi, sentindo os meus sentidos ficarem fracos. Mas então, eu senti o cheiro: água.
Eu apertei o passo, caindo no chão, mas me forçando a levantar de novo. Eu estava quase lá, só mais um passo. Então, senti uma dor forte na parte de trás da minha cabeça e tudo ficou escuro.
***
“Você é uma garota de muita sorte”, a voz de uma mulher disse, parecendo distante.
Eu tentei abrir os meus olhos, mas tudo estava embaçado. Depois de alguns minutos, a minha visão ficou mais clara e eu vi uma mulher velha com cabelos brancos como a neve. Ela era bonita para a idade dela, o que só podia significar uma coisa: ela era uma lobisomem. Eu não precisava sentir o cheiro dela para saber disso.
Ela se levantou, segurando um copo de prata com um canudo. “Tome, você deve beber isto.”
Eu olhei para ela com desconfiança, mas não recusei. Eu precisava da água. Se ela me quisesse morta, eu já estaria agora. Mas eu sabia que ela era uma ameaça. Tinha sido ela quem bateu em mim.
Depois de beber a água, eu limpei a garganta. O meu corpo estava começando a se curar. Eu analisei a minha situação. Eu estava presa a uma cadeira com correntes, coberta com o sangue do cervo e com o meu próprio sangue por causa das queimaduras de sol. Eu estava imunda e cheirava muito mal.
“Onde estou?” eu perguntei para a mulher.
Ela deu um sorriso de lado, girando uma adaga de prata nas mãos. “Você está nas Terras Mortas. Bem-vinda ao território do Roman, lobinha.”
Quem caralhos é esse, e por que eu deveria me importar? eu pensei, levantando uma sobrancelha.












































