
Tempestades e Sombras Livro 1: A Sombra da Coroa
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O Tempo é um Ladrão
AZARIAH
A primeira luz do amanhecer é uma mentira.
Um símbolo de esperança, o começo de um dia novo, anunciado em toda a sua grandeza como se dissesse que hoje será melhor do que ontem.
Mas nenhum novo amanhecer trará Marcellus de volta.
Nenhum novo amanhecer fará um dragão criar um laço comigo.
Nenhum novo amanhecer vai me salvar do peso de ser rainha.
E como se o próprio amanhecer já não fosse cruel o bastante, eu estou longe do castelo quando a primeira luz dourada e zombeteira se espalha pela terra.
Os pássaros cantam enquanto as sombras somem, mas uma sombra está atrasada. Muito, muito atrasada.
Vilhelm foi claro em suas ordens. Elimine o alvo e não se atrase para o encontro ao amanhecer. Só isso. Duas coisas. Muito simples.
Enquanto meus pés voam pelas pedras da rua, a exaustão lutando para dominar meu corpo, penso em como vou justificar o meu atraso.
Adicione a isso o meu fracasso em sequer dar uma olhada nas cartas de pretendentes que Vilko me ordenou que lesse, e começo a me perguntar se ser devorada por um dragão poderia, na verdade, ser o ponto alto da minha manhã.
Estou morta de qualquer jeito. A questão é apenas o que dói menos: dentes muito afiados ou deixar meu pai puto?
Eu acho que prefiro a primeira opção.
Os guardas não me causam problemas quando passo pelos portões, talvez devido à pressa dos meus movimentos, o brasão no meu manto sendo identificação suficiente.
Ou talvez seja por causa das várias armas no meu corpo, sujas de sangue fresco.
Viro a esquina do castelo, seguindo para o labirinto de passagens escondidas dentro das paredes.
Mas, logo antes de entrar na passagem escura, os pelos da minha nuca se arrepiam.
O passo que dou para trás é sutil, com a mão já soltando a adaga do meu cinto, mas, antes que eu possa atacar, minhas costas batem no chão, o ar sendo roubado dos meus pulmões.
Uma bota aperta meu pulso, prendendo minha mão e a adaga contra a pedra.
O Mestre da Morte paira sobre mim, com o capuz puxado para baixo, não que isso esconda a linha de decepção em seus lábios.
“Descuidada.” A bota dele aperta mais a minha pele enquanto ele se abaixa, tirando a adaga da minha mão. “E atrasada,” ele acrescenta, virando a minha própria lâmina contra mim e apoiando a ponta afiada na minha garganta.
“Eu não tenho tempo para isso,” eu falo brava, tentando me levantar sem muita força.
A lâmina corta a minha pele, a ardência é fraca, mas suficiente para mostrar que Vilhelm não vai me soltar ainda.
“Não, eu não tenho tempo para isso,” ele corrige, jogando o capuz para trás e me lançando um olhar frio.
“Você está atrasada. Como resultado, tive que ouvir o seu tio reclamar de novo que você não deu sequer uma olhada em um possível pretendente. Minha paciência está chegando ao fim.”
“Isso me custou algumas horas de vigilância,” eu argumento. “Eu não podia simplesmente atacar sem ter uma ideia do que estava enfrentando.”
“Eu não me lembro de ter pedido justificativas,” ele diz com raiva. “Eu te disse ontem, não se atrase.”
Ele se afasta de mim e joga a adaga no chão ao meu lado.
“Continue abusando da sorte, filha, e vamos ver aonde isso a leva.” Então ele se vai, me deixando a resmungar palavrões enquanto me levanto, limpo a poeira da roupa e sigo em frente com o meu dia.
***
Não demora muito até que eu me encontre largada no sofá escuro do escritório de Vilko, lendo pedido após pedido, uma pilha de cartas descartadas de um lado e uma pilha de cartas ainda por ler do outro.
Eu provavelmente deveria ter tirado a minha roupa suja de assassina, trocando-a pela da princesa que deve aceitar um desses pedidos.
Mas eu já estava atrasada, e essa roupa é muito mais confortável que um espartilho.
Amasso a carta nas minhas mãos, jogando-a descuidadamente na pilha que cresce no chão.
Normalmente, os pretendentes viriam me ver pessoalmente.
Haveria dias inteiros passados na sala do trono ouvindo propostas, com a corte do rei presente para testemunhar cada uma delas.
Mas Vilko e Vilhelm me conhecem muito bem. Por isso, eles deixaram que os pedidos fossem feitos por escrito.
Pode ser que eu consiga me passar por uma princesa adequada na maioria dos dias, como é exigido de mim. Contudo, todos nós sabíamos que, se eu tivesse que ficar sentada por dias a fio ouvindo baboseiras masculinas, provavelmente fugiria do reino para nunca mais ser vista.
Abro outra carta, mal lendo uma frase antes de jogá-la na pilha de descarte.
“Azariah,” o Rei Vilko me dá uma bronca, “você precisa mesmo ler as cartas antes de jogá-las fora.”
Eu pego a carta que acabei de rejeitar. Leio a primeira linha em voz alta para o meu tio.
“‘Saudações, Princesa. Acho o seu desrespeito pela tradição bastante chocante, e ter que lhe escrever uma carta em vez de falar cara a cara parece impessoal; é isso que posso esperar de você como esposa?’”
Então olho para o meu tio, encontrando sua expressão tão perturbada quanto a minha.
“Certo,” ele cede, “essa você pode queimar… mas me dê ela aqui primeiro, eu posso ter que passar o nome para o seu pai.”
Ele estende a mão, esperando a carta.
Eu jogo a carta de volta na pilha.
“Ah, tio, qual é. Nós dois sabemos que o meu pai não vai dar a mínima para isso.”
“Você já achou algum pretendente que chame a sua atenção?” Vilko pergunta, tirando os olhos dos papéis na mesa dele.
“Só como alvos para matar,” eu respondo.
“Azariah,” Vilko repreende pela segunda vez. “Gostando ou não, você precisará se casar quando assumir o trono, nem que seja apenas para produzir herdeiros.”
Puxando meu capuz para trás, viro para olhar para o meu tio, com o rosto franzido de nojo.
“Você quer que eu vomite o meu café da manhã?”
Ele me lança um olhar sério. Os olhos castanhos dele brilham de irritação.
“É o seu dever, Zar, um que todos nós precisamos cumprir para levar a linhagem adiante.”
Minhas sobrancelhas se juntam, com uma expressão de repulsa no rosto.
“É fácil para você falar, você é um homem. A sua parte em dar continuidade à linhagem não inclui gerar a criança.”
Ele dá de ombros. “Ainda assim, é um dever que deve ser cumprido. Até o seu pai teve uma filha pelo bem da linhagem.”
“É, eu sempre me perguntei que milagre fez isso acontecer. Papai não parece o tipo de homem que se importa em ter filhos.”
Vilko me olha feio.
“Temos sorte que ele o tenha feito, ou não haveria herdeiro para o trono.”
Eu dou um sorriso falso para o meu tio.
“Sorte a minha.”
Ele solta um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto.
“Você precisa de um rei consorte. Como já lhe disse antes, você não precisa se casar com ele até assumir o trono, mas precisa ter um engatilhado. Eu lhe dei tempo para achar alguém do seu próprio jeito, para se apaixonar, mas tempo não é mais um luxo que temos. O seu pai está perdendo a paciência.”
“Ah, é mesmo? Eu não tinha notado,” murmuro, voltando minha atenção para a tarefa em mãos e abrindo mais uma carta.
“Vamos dizer que uma tragédia aconteça com o meu noivo.”
“Não, Azariah,” Vilko interrompe. “Matar o seu noivo não vai livrá-la do seu dever. E se você sequer tentasse fazer uma coisa dessas, eu mandaria Vilhelm para garantir a segurança do seu noivo. Me diga, sobrinha querida, como você acha que o seu pai reagiria a uma tarefa dessas?”
Não há mentira no tom do meu tio — ele realmente faria isso e, então, o meu noivo não só continuaria vivo, mas o meu pai provavelmente me mataria ele mesmo.
“Era só uma ideia para imaginar,” eu murmuro desanimada.
“Aham,” meu tio resmunga. “Tão imaginário quanto a minha ideia, eu tenho certeza. Agora se apresse e escolha um. Se eu tiver que dizer ao seu pai que perdemos mais um dia, ele não vai gostar nada.”
“Você não é o rei?” eu pergunto arrastado. “E, até onde o reino sabe, você é o meu pai. Então, por que temos que mantê-lo informado sobre qualquer coisa a ver com esse assunto?”
“Porque ele é o seu pai de verdade, Azariah, e usar a coroa não significa que você não precisa mais dar satisfações a ninguém, algo de que você faria bem em se lembrar.”
Eu apenas reviro os olhos e volto a ler a carta que ficou um pouco amassada na minha mão.
Querida Princesa Azariah,
Embora eu ache o processo de escrever uma carta de proposta um pouco fora do comum, também entendo que os deveres de uma princesa devem tomar muito tempo, e as cartas economizam um pouco do tempo de todos nós.
E eu acho que vou economizar ainda mais tempo parando por aqui.
Eu coloco a carta na pilha de lixo.
“O Senhor Kleitos me disse que você estava na Caverna dos Dragões no outro dia,” Vilko diz.
Os papéis na mesa dele devem estar muito chatos para ele querer falar sobre isso.
“Foi mentira,” respondo sem nem olhar para ele. “Eu precisava de uma desculpa para a minha ausência, uma boa, já que ele estava me procurando. A Caverna dos Dragões serviu.”
Falando nisso, eu vou precisar de outra desculpa para o meu sumiço de hoje de manhã.
“Você deveria pensar em tentar de novo.”
Eu não me dou ao trabalho de responder. Continuo com a tarefa chata que estou fazendo.
“Azariah,” Vilko diz, com um tom de aço na voz dessa vez. “Você precisa tentar de novo. Você não vai se conectar a um dragão se escondendo nas sombras.”
“Eu não vou me conectar a um dragão, e ponto final,” falo irritada. “Eu mal escapei com vida na última vez, e, como você e meu pai frequentemente me lembram, se eu estiver morta, não há ninguém para assumir o trono.”
“O seu pai e eu estávamos conversando.”
“Nossa, isso sim é uma surpresa enorme, tio,” eu brinco com ironia.
Ele continua falando, como se eu não tivesse dito nada. “Você deveria tentar se aproximar de Eiko.”
Minhas sobrancelhas se juntam em confusão. “A dragoa da antiga rainha?” eu esclareço, virando para olhar para Vilko. “A Eiko não está inacessível desde a morte da rainha?”
Os olhos de Vilko se fixam em um ponto na parede distante, com um leve sorriso em seus lábios. “A Rainha Inanna era uma guerreira feroz antes de aceitar o meu pedido, mas ela sempre teve um lado suave, e dizem que a dragoa dela era muito parecida com ela nisso.”
“Ela não queimou metade de uma floresta quando a Inanna morreu?” pergunto inexpressiva, incapaz de imaginar a dragoa branca com a palavra suave ao lado dela.
“Quanto mais profundo for o laço, mais o dragão sentirá a perda de seu montador,” Vilko explica. “Eiko não foi a única que quis ver o mundo queimar naquele dia.” O sorriso dele fica amargo, e a tristeza enche os seus olhos escuros.
A Rainha Inanna foi o primeiro e único amor de Vilko.
Antes dela, dizem que ele era muito mais parecido com o seu irmão, Vilhelm, e não tinha nenhum desejo de tomar uma rainha, algo muito semelhante à minha própria repulsa ao pensar em ter um rei consorte.
Mas, como ele conta a história, o mundo dele mudou para sempre desde o primeiro momento em que a viu no campo de batalha.
Ele ficou tão encantado por ela que quase foi morto, salvo pela própria beleza que o distraía.
Aparentemente, foi preciso muito convencimento antes que ela aceitasse deixar a vida como Montadora de Dragões para trás e aceitasse a posição de rainha.
Mas ela fez isso, por ele.
Vilko sempre me diz que o meu pai nunca o perdoou por ter levado uma de suas melhores Montadoras de Dragões.
Infelizmente, a rainha morreu no parto, deixando Vilko com apenas um filho e um buraco no coração.
Desvio o olhar do meu tio, com a dor nos olhos dele sendo avassaladora.
“Se esse é o caso, eu não acho que Eiko vá querer um novo montador tão cedo.”
“Tente,” ele implora. “Você é uma guerreira tão feroz quanto Inanna era, e também está destinada a ser rainha.”
“Sou uma assassina,” eu corrijo. “Eu não luto em campos de batalha, eu me escondo nas sombras. Além disso, Inanna se conectou a Eiko antes de ser rainha, e eu duvido seriamente que dragões possam ver o futuro.”
“Tente,” ele repete.
“E o que acontece quando não der certo?” exijo, me virando para encará-lo com raiva. “O que acontece quando outro dragão me rejeitar, tio? O que acontece se Eiko tentar me matar? Você sempre me diz para ter mais cuidado, e ainda assim quer que eu vá arriscar a minha vida na Caverna dos Dragões de novo.”
“Você acha mesmo que eu pediria para você ir lá se eu achasse que a sua vida corria perigo?” ele pergunta.
Eu aperto os dentes. A frustração queima dentro de mim.
Não posso admitir que não é a minha vida que eu realmente tenho medo de perder. Não posso admitir que o meu verdadeiro medo é ser rejeitada de novo, de ter outro dragão me dizendo que não sou boa o bastante.
Eu acho que os dragões sabem tão bem quanto eu. Eu não mereço o trono. Eu não sirvo para ser rainha.
“Tudo bem,” acabo cedendo. “Uma última tentativa, vou me aproximar de Eiko.”
Vilko abre um grande sorriso. “Excelente. Nós iremos hoje à noite, depois que escurecer.”
Pego mais uma carta, balançando-a no ar enquanto digo: “Então é melhor eu terminar isso logo, porque parece que nós vamos fazer uma fogueira.”















































