
A Linhagem Amaldiçoada 2: O Juramento Quebrado
Author
Salem Morgan
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Chapters
48
Capítulo 1
Livro 2: O Juramento Quebrado
LUXURY
O mundo estava quieto. Pela primeira vez.
Selene estava deitada enroscada ao meu lado. A cabeça dela descansava no meu peito. A pele dela estava quente e rosada de sono. Eu tinha minha mão espalmada sobre o pequeno volume da barriga dela. Nossos filhotes gêmeos estavam enroladinhos dentro dela — seguros, perfeitos, nossos.
A ligação entre nós parecia calma e feliz. Mesmo dormindo, ela me procurava. Era só instinto.
O cabelo dela era uma bagunça de seda negra contra minha pele. Toda vez que ela se mexia um pouco, a curva do corpo dela — redonda e cheia com nossos filhos — fazia meu peito apertar com um tipo diferente de desejo.
Eu nunca tinha desejado nada do jeito que eu a desejava assim.
Não só a necessidade forte de tocá-la, de reclamá-la de novo e de novo, mas a necessidade mais profunda de mantê-la envolta nessa paz. Protegida. Amada. Inteira.
Ela se mexeu, os lábios dela tocando minha clavícula. “Acho que eles estão chutando de novo” ela disse com voz sonolenta. A voz dela era suave e doce.
Eu sorri e beijei o topo da cabeça dela. “Eles sabem que o pai deles está em casa.”
“Mm” ela murmurou. “Ou isso ou eles já estão brigando aí dentro.”
“São meus” eu disse “, então os dois.”
Ela riu. O som era baixo e cheio. Então ela ficou imóvel — como se pudesse ouvir algo que eu não podia.
E então eu senti também.
A ligação puxou com força.
“Alfa. Onde ele está?”~ A voz de Erik cortou através da ligação da matilha — afiada, tensa e cheia de algo que eu não ouvia dele há anos.
Medo.
Eu me sentei num pulo, quase empurrando Selene da cama. “Quem?” Eu respondi pela ligação. Eu já estava pegando as roupas na cadeira perto da porta.
"Meu irmão. Cain. Ele sumiu, Lux. Ninguém o viu desde o pôr do sol. Ele não voltou para casa. Ele não está respondendo.”
Os olhos âmbar de Selene encontraram os meus na mesma hora. Ela estava bem acordada agora. “Quão ruim está?” ela perguntou.
Eu não respondi. Só a beijei, forte e rápido. Deslizei minha mão sobre a redondeza do estômago dela uma última vez antes de sair pela porta.
Porque eu já sabia — estava ruim.
A porta da minha ala bateu atrás de mim. Quando finalmente saí para o ar fresco, o céu estava aberto. A chuva caía forte e pesada, me encharcando em segundos.
O frio não importava, não comparado ao medo profundo começando a se espalhar pelo meu corpo.
Cain tinha dezesseis anos. Ele tinha se transformado pela primeira vez há pouco tempo. Ainda estava em treinamento. Ainda descobrindo que tipo de lobo ele ia se tornar.
Erik tinha sido duro com ele. Ele nem falava com ele até que conseguisse seu lobo. Mas nunca foi injusto. O garoto era forte. Leal. Ansioso para se provar.
E agora, ele tinha sumido.
A chuva forte tornava tudo mais difícil. A lama puxava minhas botas enquanto eu caminhava em direção à linha de árvores onde Erik já estava esperando. Os ombros dele estavam tensos como se estivesse segurando um grito.
“Alguma coisa?” eu perguntei.
Ele não virou. Só continuou encarando a floresta como se pudesse fazer o irmão dele sair andando de lá.
“Havia um rastro” ele disse baixinho, a mandíbula travada. “Um dos guardas pegou por um segundo perto do campo de treinamento, mas a chuva...”
Ele não terminou. Não precisava.
Eu já sabia. Qualquer cheiro que Cain deixou para trás tinha sido lavado pela tempestade.
Eu levantei a cabeça e respirei fundo, tentando captar algo — qualquer coisa. Mas o vento estava errado, e o cheiro de terra molhada e pinheiro cobria todo o resto.
Eu odiava isso. Odiava a torção doentia no meu estômago, a sensação fria se enrolando sob minhas costelas.
Eu não conseguia mais rastrear porra nenhuma.
Não como costumava.
Quando eu era cego, meus outros sentidos tinham ficado muito mais aguçados. Eu tinha aprendido a ouvir a diferença nos padrões de respiração, sentir o gosto do medo no ar, sentir passos no solo como sussurros nos meus ossos.
Mas a visão — a visão tinha me deixado acomodado.
E o conforto me deixou fraco.
Ninguém dizia em voz alta. Ninguém ousava. Mas eu sentia toda vez que falhava em notar algo primeiro. Toda vez que outra pessoa via a ameaça antes de mim.
Eu abri e fechei as mãos ao meu lado, tentando empurrar o ódio próprio para baixo. Agora não. Não quando Erik estava desmoronando ao meu lado.
“Vou te ajudar a encontrá-lo” eu disse, minha voz baixa e firme. “Vamos encontrá-lo.”
Erik finalmente virou. Os olhos dele — geralmente tão difíceis de ler — queimavam com algo cru.
“Ele é só um garoto, Lux. Ele é meu irmão mais novo. Se alguém o levou... Caçadores...” A voz dele falhou, mas ele não desviou o olhar. “Vou matá-los.”
Eu acenei uma vez. Sem conforto falso. Sem promessas vazias. “Então vamos caçar.”
A floresta virou névoa quanto mais fundo íamos. As árvores eram mais velhas aqui, curvadas e inclinadas com idade e poder. A chuva tinha diminuído para um chuvisco constante, mas tudo pingava, encharcado e silencioso.
Esta terra era diferente. Sempre foi.
O ar zumbia levemente com algo mais do que proteções mágicas para nos manter separados da sociedade normal... Memória, talvez. Dor. Um resquício do que meu pai fez aqui, e sua cura.
Eu devia às bruxas por isso. Por terem ajudado a desfazer. Por terem me devolvido o que eu tinha.
Erik, por outro lado, preferia engolir vidro do que agradecer a uma bruxa.
“Não devíamos estar aqui” ele disse ao meu lado, franzindo a testa enquanto cruzávamos as pedras de fronteira desbotadas que marcavam a borda da terra recém-protegida delas.
“Elas são nossa única chance” eu lembrei a ele.
“Elas não são nossas” ele retrucou. “São só mortais que brincam com fogo e acham que isso as torna deusas.”
Eu não respondi. Não porque ele estava certo — mas porque a verdade era que Erik sempre ficava assim perto de bruxas. Temperamental. Quieto. Como se a pele dele não servisse direito.
O cheiro de lavanda e fumaça se enrolou ao nosso redor antes de as vermos. Três bruxas estavam em um semicírculo logo além da clareira. Cada uma usava uma capa de veludo vermelho-arroxeado. Os olhos delas brilhavam daquele jeito não-exatamente-humano que fazia até lobos experientes hesitarem.
E atrás delas, parada separada, estava uma bruxa mais jovem, com certeza nova no clã. Ela se apoiava contra uma árvore antiga como se tivesse todo o tempo do mundo. Pele marrom-escura que brilhava como mel ao luar, tranças longas caídas sobre um ombro, olhos da cor de musgo encharcado de tempestade.
Ela estava me observando.
Não só olhando — observando.
Como se visse algo que eu ainda não tinha notado sobre mim mesmo.
“Alfa Theron” disse uma das bruxas mais velhas. A segunda de Madame Verda. Eu a reconheci como Mora. Fria, reservada, com um ar permanente de desaprovação. “Seu cheiro ainda se agarra a esta terra.”
“Não estou aqui para perturbar nenhuma de vocês” eu disse. “Só precisamos de ajuda.”
O olhar de Mora passou para Erik, então se estreitou. “Você trouxe ele.”
“Pode apostar que trouxe” Erik rosnou. “E se vocês bruxas sabem alguma coisa sobre meu irmão...”
“Erik” eu cortei, minha voz afiada. “Cala a boca.”
Ele calou — mal.
Eu me virei de volta para Mora. “Cain está desaparecido. Ele tem dezesseis anos. Ele não faz parte de quaisquer linhagens ou merda que ainda mancha este lugar. Ele é só um garoto. Procuramos em todo lugar. Se ele passou por aqui — se alguma coisa tocou esta terra que teve a ver com ele — por favor, nos ajudem a encontrar.”
Houve um momento de silêncio.
Então a bruxa mais jovem deu um passo à frente — aquela que estava me observando. Ela inclinou a cabeça levemente, um sorriso brincando no canto da boca dela. “Eu poderia fazer uma caminhada de memória” ela disse. A voz dela era quente e suave como veludo sobre aço. “Mas vou precisar de algo dele. Algo pessoal. Ligado a ele.”
“Beleza. Vou buscar” Erik disse na hora, já virando para ir.
“Você vai precisar ser rápido” Mora disse sem emoção. “Os fios da memória são coisas escorregadias, especialmente na chuva.”
Erik se transformou então, não perdendo mais um segundo, e seu lobo desapareceu na floresta sem outra palavra.
Eu fiquei parado no círculo de bruxas.
A mais jovem se aproximou. Perto o suficiente para que eu captasse o cheiro de menta e água de rosas na pele dela.
“Qual é o seu nome?” eu perguntei a ela, cuidadoso para não deixar meu olhar ficar tempo demais. Ela era linda — e sabia disso.
“Thalia Nocthrae” ela disse. “Mas acho que você já sentiu isso.”
Minha sobrancelha se contraiu. “Senti o quê?”
Ela só sorriu, largo e sabido, e passou por mim. As pontas dos dedos dela roçaram levemente contra meu braço enquanto ela se movia em direção à clareira.
“Relaxa, Alfa” ela disse baixinho ao passar. “Não estou tentando te seduzir.” Então, mais baixo: “Ainda.”
Eu fiquei olhando para ela por um segundo a mais, confusão se enrolando ao redor dos meus sentidos. Bruxas malditas.
De repente, a voz de Selene bateu no meu peito como um trovão, afiada e quente através da ligação. "Não me faça arrastar minha bunda grávida até aí. Kora e eu estamos ASSIM de perto de fazer isso!”
Eu pisquei, respirei fundo e sacudi qualquer feitiço que Thalia estava tentando lançar. "O quê?”
"Luxury Dane Theron, você me ouviu.”
Eu estremeci. Nome completo. Nunca um bom sinal.
"Ela só passou por mim...”
A presença dela crepitou através da ligação — ardente, irritada e sim, um pouco magoada. "E seu idiota ficou parado lá feito bobo. Você não percebe que eu posso te sentir, Lux? Eu sinto tudo que você sente, lembra? Você está confuso, e levemente excitado, e eu juro pela Deusa que se você não mudar essa atenção de volta para onde pertence...”
"Selene" eu cortei, “você é a única coisa que eu quero. Sempre.”~
Ela soltou um suspiro alto. "Então talvez pare de ficar babando em fêmeas que cheiram a tentação e decisões ruins.”
Eu quase ri. Quase.
Em vez disso, puxei a ligação mais forte entre nós. Deixei ela sentir, realmente sentir. A conexão do meu coração com o dela. O calor no meu peito que vinha não da luxúria, mas da culpa, depois amor.
E então propósito firme e focado.
"Você é minha companheira” eu disse, com tudo que eu tinha. "Minha Luna. Meu lar. Meu fim.”
Houve uma pausa, uma respiração quieta através da ligação, então, mais gentilmente: "Boa resposta, Alfa.” Seguido por uma cutucada afiada: "Só não me faça ir até aí nessa tempestade, inchada e descalça, para te arrastar de volta pelo que sobrou do seu orgulho.”
Eu mordi o lábio. “Sim, minha Luna.”~
“Era o que eu pensava.”~
A ligação se acalmou de novo. A presença dela recuou como uma maré, mas não antes de roçar calorosamente pela minha mente, um lembrete quente de exatamente a quem eu pertencia.
Eu me virei de volta para as bruxas, sacudindo a água do meu cabelo e puxando meu foco para a tarefa à frente.
Cain Blackmoor ainda estava lá fora.
E mesmo que eu tivesse que lidar com o temperamento de Erik, política de bruxas e lançadoras de feitiços sedutoras — eu ia trazê-lo para casa.








































