
A Série Wilde
Capítulo 3
AZALEA
Meu Deus.
Ver o Merrick de novo mexeu comigo de verdade — e não foi ruim, não. Meu corpo está todo arrepiado, e meus joelhos estão bambos. Ele é muito atraente e difícil de resistir, tipo aquelas coisas que a gente sabe que não devia querer, mas quer do mesmo jeito.
Ainda estou chocada de saber que ele virou policial. Parece até mentira.
Seis anos atrás, ele era um bad boy cheio de confiança que andava de moto, com um corpo de fazer qualquer uma querer cravar as unhas e transar até o sol raiar.
Agora ele dirige viatura e ensina as crianças sobre por que droga faz mal.
Mas ele ainda tem aquele corpo de tirar o fôlego.
Antes disso, eu nunca tinha entendido por que as mulheres gostavam de homem de uniforme. Sempre fui mais do tipo que preferia um cara gostoso de jaqueta de couro e um bom par de jeans, mas caramba. O Merrick estava muito gostoso naquele uniforme de policial.
Não tenho vergonha nenhuma de dizer que olhei bastante pra ele quando entrou e quando foi embora. A parte de trás dele é tão sexy quanto a frente, e a melhor parte é... eu já vi tudo.
Consigo imaginar ele agora, suado e completamente nu — aqueles braços fortes cheios de tatuagem, peito bronzeado, tanquinho definido, tudo descendo até aquele V sexy. E abaixo daquela linha... caramba.
Eu faria qualquer coisa pra ficar sozinha com ele. Só mais uma vez. Não precisa ser pra sempre. Uma noite já seria o bastante.
É, sei. Estou mentindo pra mim mesma fingindo que uma noite seria suficiente daquele homem.
Não importa de qualquer jeito. Nosso tempo juntos acabou faz tempo. Eu machuquei ele demais.
Deu pra ver isso estampado no rosto dele quando olhou pra mim. Ficou ainda mais claro pela forma como o corpo dele ficou tenso quando a gente se tocou. Foi como se um muro alto tivesse se erguido entre nós, e depois pegasse fogo, empurrando a gente pra longe.
“Azzy! É você?” A voz alegre da Poppy me tira dos pensamentos sobre o Merrick.
A Poppy devia ter uns doze anos quando fui embora, ainda era criança, mas caramba. Minha irmã caçula cresceu. A garotinha nerd ruiva que eu lembro se foi, substituída por uma linda mulher ruiva.
Me sinto mal quando ela me abraça, apertando como se a vida dela dependesse disso. Todo esse tempo, achei que ela ia me odiar por ter ido embora, mas aquele sorriso enorme me faz questionar se estou errada.
“Oi, Pops” sussurro contra o cabelo dela, tentando guardar esse momento. Vou precisar dele quando for embora de novo.
“Eca. Esse não é meu nome, Azzy. Não sou mais criança.” Ela franze a testa, se afastando de mim com aquele rosto bonito parecendo chateado.
Faço uma careta. Aí está — o ressentimento raivoso que eu esperava. Quer dizer, não é como se eu não merecesse. Ela tem dezoito anos e está na faculdade agora.
Perdi a maior parte dos anos importantes dela e os grandes momentos: a primeira paixão, o primeiro dia do ensino médio, formatura — droga. Sou uma péssima irmã.
“É. O tempo voa, né?” Ofereço um sorriso fraco, tentando parecer animada e falhando miseravelmente.
“É, a vida não parou só porque você fugiu e deixou a gente pra trás” a Iris dispara. O comentário maldoso dela me deixa com raiva e me enche de culpa extra que não preciso.
Fecho os punhos, cravando as unhas nas palmas pra manter a calma. Adoraria mandar ela à merda. Dizer que ela é uma vadia miserável. Mas qual seria o sentido?
Duvido que ela se importaria com qualquer coisa que eu tenha a dizer. Não é como se ela tivesse feito algum esforço pra falar comigo desde que fui embora.
Nem uma vez ela se deu ao trabalho de ligar ou ver como eu estava depois de tudo.
Quer dizer, eu também estava naquele acidente, e se ela tivesse tirado apenas um segundo pra entender o inferno que eu estava vivendo depois, talvez tivesse percebido que lidei com as coisas da única forma que consegui — sozinha e na estrada.
Ficar simplesmente não era possível. Eu não estava pensando direito, e não tinha como eu viver numa casa com todo mundo me odiando pela morte da mamãe. Eu já me culpava o suficiente por todos.
Aperto os lábios e me viro pra olhar pra minha gêmea, decidindo ignorar o comentário maldoso da Iris. “Vou pra fazenda. Rose, quer carona?”
“Não, obrigada. Vou ficar mais um pouco” a Rose diz, parecendo meio arrependida. “Você fica bem sozinha?”
Minhas três irmãs me encaram, esperando, como se achassem que vou mudar de ideia e ficar só porque elas estão ficando.
Mas não vou. Não posso. Minha culpa é forte demais, e agora parece que o sangue do meu pai está nas minhas mãos junto com o da nossa mãe.
Aceno, me sentindo na defensiva e deslocada com minha família. “Claro. Tudo bem. Te vejo em casa.”
A tristeza que sinto, minha vergonha pela dor que causei, é o motivo de eu ter ido embora. Uma parte grande e egoísta de mim não conseguia aguentar o peso da nossa família destruída nos meus ombros.
Tenho orgulho de ter ido embora e abandonado todo mundo? Não muito. Faria de novo? Com toda a certeza. Por quê? Porque é assim que eu sou.
Sempre a deslocada, nunca a favorita.
***
Na longa viagem até a fazenda, só consigo pensar em como as coisas não mudaram aqui. Claro, a Poppy cresceu, e minhas outras irmãs estão mais velhas, mas todo o resto é igual.
Ainda sou a ovelha negra — aquela que age antes de pensar nas consequências. Não me encaixo com minhas irmãs. Nunca me encaixei.
A Rose era a única exceção, sempre ficando do meu lado em todas as minhas escolhas rápidas e muitas vezes péssimas. Mas quando saí do hospital tão de repente hoje à noite, até ela pareceu desapontada comigo.
Quando paro na frente da casa, memórias antigas me atingem com força, dificultando a respiração.
Droga. Não achei que ia doer tanto voltar aqui, mas quando olho pra esse lugar, tudo que vejo é a mamãe.
A cadeira favorita dela ainda está na varanda que contorna a casa, com o cobertor em que ela costumava se enrolar dobrado com cuidado nas costas, como ela sempre deixava.
Consigo imaginar ela sentada naquela cadeira com a taça cheia de vinho, tirando alguns momentos tranquilos pra si mesma pra relaxar toda noite antes de dormir.
Deus, sinto falta dela.
Respiro fundo enquanto saio do carro. O cheiro de feno e couro atinge meu nariz enquanto os sinos de vento fazem barulho na brisa junto com o som dos cavalos nos campos. Estaria mentindo se dissesse que não sinto falta daqui.
Quando estava crescendo, cavalos eram uma das poucas coisas que me traziam paz. Sempre que algo dava errado na minha vida, eu me escondia no celeiro e lia um livro no andar de cima, acima da baia do meu cavalo favorito.
Como se nem estivesse pensando nisso, me vejo indo naquela direção, caminhando em direção aos sons dos cavalos do outro lado da porta do celeiro.
Minha velha culpa enterrada me atinge com força quando entro, me derrubando de joelhos.
Lágrimas correm livremente enquanto me ajoelho numa pequena pilha no chão, meu corpo tremendo com os soluços profundos saindo do meu peito. Não choro faz muito tempo.
Ao longo dos anos, fiquei muito boa em esconder meus sentimentos, empurrando eles pro fundo da minha mente até conseguir ignorar completamente. Era a única forma de lidar com perder todo mundo e tudo de uma vez.
Estou tão perdida na emoção de estar de volta aqui, nas memórias, que não ouço passos se aproximando até que um braço forte envolve meus ombros.
O abraço parece tão familiar e natural que nem preciso olhar pra cima pra saber quem é. Cada célula do meu corpo lembra a sensação dele, a presença forte que o segue por onde quer que vá.
Apesar da minha tristeza avassaladora, meu corpo formiga com aquela sensação excitante que eu costumava ter sempre que o Merrick me tocava. Droga, droga, droga. Por que ele está aqui? Nada de bom pode vir disso.
Não posso me apoiar nele — não quero. Ser fraca nunca foi meu forte. Considero isso uma falha de caráter.
Mas é como se eu não conseguisse me controlar. As malditas lágrimas não param de cair. É como se eu tivesse apertado algum botão invisível de fraqueza ao voltar aqui.
“Me solta!” Empurro fracamente contra ele, lutando contra o conforto suave do abraço dele. Meu corpo pequeno não é páreo pra força dele, então ele me segura mais apertado, enrolando meu corpo no peito dele pra me segurar perto.
O Merrick espera minha luta passar, me balançando no colo dele como uma criança pequena. “Para de lutar contra mim, Az. Só me deixa estar aqui pra você.” Ele envolve o outro braço ao meu redor, erguendo a mão pra acariciar meu cabelo em movimentos suaves e constantes.
Não quero que ele esteja aqui. Que me veja assim. Sempre fui a mais durona, a mais fechada entre nós.
Apesar da aparência externa dele como o bad boy do lado errado da cidade, ele tinha um coração de ouro puro. Muito diferente do pedaço de músculo pesado no meu peito, feito de nada além de arestas afiadas e arrependimento.
Não mereço ele. Nunca mereci, e nunca vou merecer. Mas isso não me impede de relaxar nele, enterrando meu rosto no cheiro masculino atraente dele.
Aquele lado egoísta sempre presente em mim sabe que estou só usando ele, aproveitando da fraqueza dele por mim pra ter um gostinho do amor que um dia tive.
Sei que não posso dar a ele o que ele precisa, mas por enquanto, posso fingir — pelo meu bem — porque ele é a única coisa me mantendo inteira enquanto desmorono.
Lábios gentis pressionam contra o topo da minha cabeça, substituídos por uma bochecha com barba por fazer e um sussurro. “Shh, shh, shh. Tá tudo bem, Az. Eu te peguei. Deixa tudo sair.”
E no meu momento de fraqueza, eu deixo. Choro pela perda da minha mãe, meu pai, e pela dor que causei às minhas irmãs, mas acima de tudo, choro por ter destruído o coração de um homem como o Merrick.
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