
Um Mundo Secreto de Magia Livro 1: A Prodígio
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Capítulo 1
IRIS
Apenas sobreviva... continue andando... você precisa.
Eles iam querer isso...
O chão da floresta sob mim parecia me odiar.
Cada passo que eu dava era mais pesado que o anterior.
Eu tinha tropeçado e caído tantas vezes, que não conseguia nem sentir as minhas próprias mãos mais.
Cada impacto me fazia chorar e me forçava a correr ainda mais rápido.
Algo estava me caçando — os animais da floresta enrijeceram, as orelhas tremendo na direção das sombras.
Eu sentia a sua busca... como dedos deslizando por entre as folhas.
Pressionei as palmas das mãos nas costelas, a prova de que eu já não tinha me dissolvido.
Mas eu estava sozinha.
Toda vez que eu pensava nos meus avós, o meu coração se partia em mil pedaços.
Agora, eu não conseguia nem chorar.
O que diabos estava acontecendo? Eu tinha enlouquecido?
Talvez isso fosse apenas mais um pesadelo e eu acordaria ofegante a qualquer segundo.
Mas a dor que ardia a cada passo me dizia o contrário.
Nenhum sonho jamais queimou desse jeito.
Eu estava fugindo há muito tempo.
A exaustão só tornava mais difícil andar, porque eu já não conseguia correr há algum tempo.
Cada respiração que eu dava era difícil, meus pulmões ardiam, incapazes de respirar.
E o meu corpo parecia tão estranho, como uma casca vazia vagando pela noite.
Apenas continue andando, afinal, eles estão mortos por sua causa!
A floresta sibilou.
Eu me virei.
Os meus olhos se focaram nos arredores... prestando atenção aos ruídos.
Tudo o que eu via era escuridão, e pela primeira vez na vida, fiquei feliz em ser engolida por ela.
Não havia ninguém atrás de mim... ninguém estava me seguindo.
Eu fugi por horas sem uma pausa adequada.
Ainda na minha mão estava o envelope que a minha avó tinha me dado algumas horas atrás, enquanto me empurrava para a porta.
“Corra, Iris... Corra o mais rápido que puder. Tudo o que você precisa saber está nesta carta... e não olhe para trás. Quando estiver segura, abra a carta e a leia. Siga as instruções... Nós amamos você”, chorou a vovó.
Eu me virei para Pops, um sorriso gentil enquanto ele assentia, logo antes dos seus olhos ganharem um brilho roxo.
O seu brilho violeta me petrificou.
Essa luz suave lhe emprestava algo mágico; ele já não era apenas o avô familiar.
Um ser do além.
A cor cintilava como o último vestígio de um pôr do sol refletido nos seus olhos, quente, mas misterioso.
Todo o seu ser parecia se transformar, as suas feições parecendo mais nobres, dignas.
Era como se ele tivesse assumido de repente a sabedoria e a graça de um ser que caminha entre mundos.
No entanto, apesar dessa estranha beleza, o calor no seu olhar permaneceu, essa preocupação silenciosa apenas para mim.
Os seus olhos violetas guardavam contos não ditos... de mundos esquecidos, segredos sussurrados por estrelas, e um escudo que eu nunca tinha visto.
A luz se acumulou naquelas orbes — um amanhecer selado em ametista.
Esse olhar era atemporal, como se tivesse vivido por séculos e, no entanto, preservasse cada detalhe do mundo com uma curiosidade infantil.
Era um olhar que me fazia sentir humilde e segura... um poder naqueles olhos que não comandava, mas sim protegia.
Fiquei surpresa e assustada, com os olhos arregalados, encarando o meu avô.
Mas a vovó me empurrou pela porta e começou a murmurar algumas palavras.
Não eram palavras desconhecidas. Inumanas.
Senti um calor ao redor do meu corpo e vi uma névoa que me abraçou.
Por um momento fugaz, o meu corpo ficou sem peso, suspenso como a névoa, antes que o calor e a leveza se dissolvessem no nada.
Quando percebi que não estava mais na casa da minha família, mas em algum lugar no meio da floresta, eu ofeguei.
Isso era um sonho?
Comecei a correr e me lembrei das últimas palavras da vovó bem antes de morrer, lutando junto com o meu avô contra ele...
O homem com quem eu sonhava desde que era uma garotinha.
Os dois ficaram para trás para me manter viva, me dando a chance de fugir e me salvar.
Eu realmente os vi morrerem?
Apenas continue andando... A vovó e o Pops iam querer isso.
Eu estava cansada, com fome e com medo.
A chuva encharcava as minhas roupas, e o meu cabelo emaranhado ainda carregava a terra e as folhas da fuga desesperada pela floresta da noite passada.
Eu estava fugindo, como uma covarde, chorando e assustada.
Mas a vovó me forçou a ir embora... ela insistiu para eu pegar a carta, e fugir.
Eu deveria ter ficado... mesmo que isso significasse que eu morreria. Eu devia isso a eles!
Mas era impossível.
Depois de fugir por horas, me vi em um terreno desconhecido.
Isso é bom, não é?
Isso significava que eu tinha escapado o suficiente para poder descansar. Pelo menos por um tempo.
Pela primeira vez em muito tempo, eu pareci me deparar com uma área residencial.
Encontrei um esconderijo em um galpão em algum lugar bem longe das pessoas.
Eu precisava encontrar um telefone — a polícia já devia estar me procurando a essa altura. Mas como diabos eu ia explicar tudo isso para eles?
O prédio estava lá como um colosso esquecido, as suas janelas cegas de poeira e escuridão.
Ao empurrá-la, a porta da frente rangeu como um grito abafado.
Lá dentro, o ar era denso de mofo e do cheiro doce de produtos em decomposição.
Prateleiras, tortas e comidas de traça, estavam alinhadas em corredores intermináveis, cheias de coisas que ninguém mais precisava.
Bonecas quebradas com olhos de vidro fixos, roupas desbotadas penduradas nas araras como cascas fantasmagóricas.
Pingava água em algum lugar, um batimento cardíaco lento e irregular.
Eu achei ter ouvido passos perdidos entre os corredores, mas quando me virei, havia apenas silêncio e a sensação de estar sendo observada.
Pelas sombras entre as prateleiras.
Pelos olhos vazios dos manequins.
Pelo próprio galpão, respirando como se estivesse vivo.
Eu desabei no chão chorando e me encolhi contra a parede fria.
Eu só precisava de meia hora de descanso. Apenas para recuperar alguma força, para que eu pudesse continuar.
Mas eu estava cansada demais, e com os olhos fechados, acabei adormecendo.
***
Eu acordei com um medo terrível ao perceber que não era um sonho. Tudo o que aconteceu comigo na noite passada.
Eu ainda estava confusa e assustada, pensando nos eventos que aconteceram.
Eu não estava sonhando... Eu vi isso, não vi?
Foi como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dos meus pés quando percebi. A minha avó usou feitiços...
Mas aquela era a minha avó, a mesma que me criou depois que os meus pais morreram.
Eu não sabia muito sobre os meus pais; eu só ouvia coisas boas da vovó e do Pops.
Os meus pais se amavam muito e ficaram muito felizes quando nasci.
Mas, infelizmente, eles morreram num acidente de carro, e assim os meus avós assumiram o cuidado de mim.
A única coisa que eu tinha da minha mãe e do meu pai era uma foto.
Eu frequentemente olhava para ela, e rapidamente percebia que eu me parecia mais com a minha mãe.
Ela parecia uma mulher simpática, o seu longo cabelo preto caindo em ondas suaves sobre os ombros, como se fosse moldado pelo próprio vento noturno.
Cada cacho parecia refratar a luz de forma diferente, às vezes profundo como ébano, às vezes com um toque de roxo escuro, como se ela carregasse um segredo na sua sombra.
Os seus olhos eram grandes e verdes... não o verde chamativo, mas o verde quente e vívido de pedras cobertas de musgo, de florestas que o tempo havia esquecido.
Eu gostaria de ter mais lembranças da minha mãe.
Eu sentia tanto a falta dela na minha vida, assim como do meu pai.
Os meus avós cuidaram de mim com muito amor, como se eu fosse a coisa mais importante da vida deles.
Mas, ainda assim, eu me sentia vazia.
Eu nunca me destaquei e nós vivíamos uma vida modesta e muito chata.
Durante a escola eu nunca tive amigos; eu era bastante solitária.
A vovó sempre me dizia: “Um dia você vai encontrar amigos de verdade que são iguais a você.”
Depois de terminar a escola, encontrei um emprego e cuidei deles.
Eu evitava as pessoas e não socializava, porque sabia que os outros me considerariam estranha.
Uma garota que ouvia vozes desde tenra idade e tinha os sonhos mais estranhos.
Eu não era o tipo de garota da qual as pessoas se cercavam.
E eu duvidava muito que elas não fossem pensar que eu estava louca, ou que acreditassem em qualquer uma das coisas que eu pudesse lhes contar sobre os meus sonhos assustadores.
A vovó era a única que acreditava em mim.
Eu contava a ela sobre os meus sonhos.
Às vezes, ela parecia um pouco preocupada.
Mas eu também estaria, se alguém me dissesse que falava com estranhos nos sonhos desde a infância.
Na noite passada, ao entrar vindo do trabalho, o som das vozes alteradas da vovó e do Pops podia ser ouvido do corredor.
O som da sua discussão me paralisou no lugar, com as chaves ainda penduradas nos dedos.
“Nós não vamos deixar que levem a Iris de nós. Eles mataram a nossa Liora... Oscar, esteja pronto, não temos escolha. Nós não podemos mais nos esconder... brincar de ser humanos. Chegou a hora, precisamos protegê-la. Ela é impotente”, uivou a vovó, um som cru de pânico.
Quando me viram parada na porta, eles me puxaram para perto deles em pânico.
Os seus olhos estavam cheios de medo, olhando por trás de mim.
Um empurrão forte. A porta escancarou-se com um estrondo.
Eu me virei e vi três homens altos com cabelo escuro e olhos pretos.
A escuridão ao redor deles não era apenas a ausência de luz... Era algo vivo.
Agarrava-se às suas silhuetas como piche viscoso, pingando dos seus ombros e se arrastando em fios atrás dos seus passos, como se a própria noite não os soltasse.
Até mesmo a luz forte de um poste batendo no pavimento não ousou iluminá-los completamente.
Ela foi engolida pelos seus contornos, como se alguém tivesse apagado pedaços da realidade.
Os seus rostos eram apenas vagamente reconhecíveis, mas as sombras neles eram mais profundas do que deveriam ser, como se as suas órbitas oculares não levassem a lugar nenhum.
Quando eles respiravam, a escuridão fluía com eles, jorrando das suas bocas como fumaça que não conhecia o fogo.
E as suas mãos... as suas mãos eram quase invisíveis, como se já tivessem se derretido pela metade na escuridão que os cercava.
Eles me seguiram? Eles apareceram em uma névoa negra... de onde essa névoa veio?
“O que está acontecendo? Quem são vocês?”, gritei, encarando os olhos do homem que andava na minha direção.
Eu o reconheci imediatamente... Esse é... o homem dos meus sonhos.
O seu longo cabelo preto caía até o chão como seda rasgada, mas não se movia com o vento... não, rastejava como se houvesse mil pequenas aranhas escondidas nele, controlando cada fio como um ser separado.
O seu rosto era tão pálido quanto o luar apodrecido, a sua pele esticada sobre ossos afiados, como se a morte não tivesse sido capaz de completá-lo.
No entanto, os seus olhos...
Vazios. Não simplesmente pretos, mas ausentes... Dois buracos ardentes para a eternidade, cheios de um ódio mais antigo que o tempo.
Nenhum brilho, nenhum reconhecimento, apenas uma fome gelada e insaciável.
Quando eles se fixaram em mim, senti algo dentro de mim se esvaziando, como se essas pupilas estivessem devorando a minha alma pedaço por pedaço.
O seu olhar desceu pelo meu corpo e ele sorriu maliciosamente, “Eu finalmente encontrei você”, ele sussurrou.
Mas, naquele momento, a minha avó puxou a minha mão e me empurrou pela porta que dava para a varanda.
Pops murmurou algo, ficando bravamente no caminho entre nós.
Mas o homem apenas riu.
Começou como uma risadinha suave e rouca... o som de folhas secas raspando sobre lápides.
E então cresceu, inchando numa risada oca e vibrante que não parecia vir da sua garganta, mas do abismo atrás dos seus olhos.
Cada explosão de riso era como uma estocada de faca, fria e calculadora, como se ele não estivesse sentindo apenas prazer... mas satisfação.
Uma risada alta e maligna... enquanto ele atirava o Pops contra a parede com apenas um movimento do dedo indicador.
A minha avó gritou, um som agudo e rasgado que faria o meu sangue gelar para sempre.
A névoa me engoliu. Mas não antes que eu visse como os seus corpos caíram. Como ambos caíram.
O meu avô, congelado no lugar com aqueles olhos roxos arregalados.
A minha avó desabou como uma marionete com as cordas cortadas. As suas mãos, ainda meio estendidas, como se estivessem à minha procura na queda.
Eu estava sozinha. Envolta nisso, nesse nada sem ar. E a pior parte?
Eu ainda os ouvia.
O baque surdo dos seus corpos atingindo o chão. Um... depois o outro. Até não sobrar nada além de silêncio.
Silêncio...
Então — o som do amassar de papel na minha mão. A carta. O último presente deles.

















































