
Sob um Céu Vingativo
Autor
S.A. Elodie
Leituras
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Capítulos
58
Uma Terra Sem Lei
CLARA
A areia brilhava como ouro ao sol da manhã. Os grãos flutuavam na brisa fria, rodopiando e caindo de volta à terra em um padrão serpenteante. A dança era silenciosa e bela.
Apesar do sol forte, o ar ainda estava gelado. Cada respiração minha formava uma nuvenzinha visível. Puxei o lenço sobre o nariz, respirando o cheiro de cavalo e de suor enquanto observava o horizonte.
Flexionei os dedos contra as rédeas de couro, trazendo um pouco de vida e calor de volta a eles, enquanto mantinha o olhar fixo no horizonte. Diante de mim, salpicado de arbustos e cactos, o deserto se estendia em tons de dourado e roxo, indo de encontro ao sol nascente. Do sopé das colinas, era um lugar lindo para assistir ao amanhecer.
Não que mais alguém estivesse aproveitando a vista.
Os garotos ainda estavam meio adormecidos, recostados pesadamente em suas selas. Eles estavam mascando tabaco.
Ao som fraco de cascos, ergui os olhos. Uma nuvem de poeira se formava ao longe.
Uma sensação de calma tomou conta de mim. Não tínhamos vindo até aqui à toa.
“Acho que a informação de Crishom era boa, afinal”, murmurei. Eu odiava lidar com o fazendeiro. Ele tinha um gênio ruim, era pervertido e, francamente, fedia.
Eu tinha certeza de que ele venderia a própria mãe por uma garrafa de conhaque. Eu estava incomodada por ficar escondida no sopé das colinas por tanto tempo por causa das promessas dele. O rastro de corpos que estávamos seguindo estava sumindo, e eu não queria perdê-lo.
Eu não podia perdê-lo. Manter dez homens famintos cruzando o deserto custava dinheiro, e eu estava cansada de dormir na terra.
“Eu te avisei.” Ao meu lado, Norman cuspiu seu tabaco na areia dourada.
O cabelo loiro dele estava oleoso, mal contido sob o chapéu. Ele sorriu para mim quando fiz uma careta.
Puxei minha capa para mais perto dos ombros, meus dedos brincando inconscientemente com o medalhão no pescoço, enquanto um brilho surgiu das colinas acima de nós. Eu sorri. Era a hora.
“Muito bem, mocinhas, em posição agora, com bastante calma”, instruí em tom suave. Os garotos deram risadinhas.
Todos se moveram com calma e em silêncio, como uma máquina bem lubrificada. Os únicos sons eram as batidas dos cascos dos cavalos na areia e os sopros das respirações no ar frio.
Dei um leve toque na Lady, e ela subiu o sopé da colina de forma lenta e graciosa até o topo do cume que dava para a diligência se aproximando, fazendo pedrinhas rolarem sob seus cascos. Inclinei-me para trás na sela e observei a vista da minha nova posição. Ao longe, uma diligência reluzente descia a trilha rapidamente, puxada por quatro cavalos.
Com o sol aquecendo meu rosto, tirei minha Winchester do coldre. O peso frio do rifle era reconfortante nas minhas mãos enrijecidas. Confirmei se a arma estava carregada antes de desmontar.
Conduzi a Lady até o outro lado do cume e a amarrei nos arbustos atrás de mim. Ela aceitou um punhado de aveia com alegria antes de eu voltar a subir.
Deitada de bruços, apoiei meu rifle em uma pedra grande. A essa altura, os garotos do outro lado da trilha já estavam todos em posição, muito bem escondidos. Se eu não soubesse onde eles estavam, não conseguiria encontrá-los.
Exceto pelo Hank e pelo Faraday, que assumiram suas posições bem no meio da trilha sem a menor pressa. Hank estava com o rifle apoiado displicentemente no ombro, e Faraday passava os dedos sujos pela cabeça careca, que brilhava ao sol da manhã.
Quando me virei para olhar a trilha, a diligência apareceu com mais clareza. Era tão grande quanto o Crishom tinha nos avisado. Um homem idoso a conduzia, com as roupas folgadas em seu corpo frágil.
Pelas laterais da carruagem, vi vários baús cheios de carga valiosa. Fazia muito tempo desde que tínhamos roubado uma diligência tão bela.
Ao avistar Hank e Faraday parados no meio da estrada com os rifles, o cocheiro gritou para seus pôneis pararem. Ele puxou as rédeas, e os animais fizeram a diligência parar com um estrondo. A areia dourada baixou ao redor deles, enquanto Hank tocou a aba do chapéu em cumprimento e Faraday engatilhou a arma, apontando para o peito do velho.
“Olá, forasteiro”, Hank começou com seu forte sotaque do Sul. Ele era uma figura assustadora: barba longa, cabelo bagunçado escapando do chapéu e olhos azuis bem claros que podiam pertencer a um lobo. Ele mastigava seu tabaco lentamente e inclinou a cabeça para observar os arredores da diligência.
Eu já havia aprendido há muito tempo que era mais seguro para mim ficar escondida entre os homens do que me expor. As aparências importavam. E o Hank tinha a minha confiança.
Ao lado do cocheiro, estava sentado um cachorro de pelo ruivo escuro, brilhante e bem cuidado. Ele deu um latido alto, e Hank tocou o chapéu para ele.
“Por que você não poupa o tempo de todos nós e nos entrega o dinheiro do pagamento, hein?” Hank continuou.
O cocheiro levou a mão até a arma. Eu não deixei.
Puxei o gatilho e acertei a coronha do rifle dele, arrancando a arma de sua mão. O tiro ecoou pelo vale, quebrando o silêncio da manhã.
O cocheiro deu um grito quando seu rifle caiu aos seus pés, totalmente inútil. O cachorro começou a latir e saltou da diligência, farejando o chão onde pedaços de madeira e metal haviam caído.
Hank deu uma risada baixa e esfregou a barba enquanto o homem o encarava horrorizado. Hank abriu um sorriso. “Senhor, você não vai precisar disso.”
“Eu não sei quem vocês são”, o cocheiro rosnou, fuzilando Hank com os olhos. “E eu não tenho briga nenhuma com vocês. Mas eu não vou deixar que cheguem perto da minha diligência!”
“Eu evitaria ameaçar os homens que estão com armas apontadas para a sua cabeça, senhor. Meus garotos não lidam muito bem com ameaças”, Hank respondeu, coçando o lado do rosto novamente.
Ele devia ter piolhos. Estremeci só de pensar.
“Eu sei que você está levando o pagamento dos garotos rio abaixo que estão construindo aquele belo curral. Então, vamos facilitar as coisas. Entregue o dinheiro, e eu deixo você seguir viagem sem sofrer um arranhão.”
Enquanto Hank falava, Faraday se aproximou da diligência, ainda apontando o rifle para o homem. O cocheiro o observava com uma careta.
“Vocês são um bando de canalhas”, ele disse a Hank, que brincava com os próprios suspensórios.
“Olha só para isso! Ela está bem gordinha.” Faraday deu uma risada de escárnio, passando os dedos pelas laterais estufadas da carruagem.
“É melhor o senhor ficar sentado, velhote. Desçam, garotos, ajudem a gente a descarregar.” Hank acenou com o braço, e eu observei enquanto os rapazes começaram a descer o sopé da colina, indo em bando em direção à diligência.
Tranquei os dentes. Eu não gostava disso. Sempre preferi que a gangue ficasse em suas posições.
Hank era um ótimo braço direito, exceto quando decidia assumir o controle. O fuzilei com os olhos, preparando-me para lhe dar uma bela bronca quando tudo terminasse.
“Rezem para que eu morra logo, rapazes, ou eu vou passar o resto do meu tempo garantindo que vocês acabem na forca!” o cocheiro esbravejou. Ele manteve os olhos fixos em Hank enquanto a gangue se aproximava da diligência, sorrindo como idiotas.
Mantive-me em posição, acompanhando os movimentos do cocheiro com o rifle. Estava parecendo fácil demais.
Faraday segurou a lateral da carruagem e a abriu com um grito triunfante.
Meus olhos já haviam se voltado de novo para o cocheiro quando ouvi o primeiro disparo. Atrás da diligência, o corpo de Faraday foi jogado para trás e caiu de costas na poeira. Um buraco escancarado sangrava em seu peito.
Meu estômago revirou.
Eu não podia hesitar. Apertei o gatilho e derrubei o cocheiro do banco, fazendo o corpo dele desabar na terra.
O caos tomou conta do lugar.
Homens da lei saíram da diligência de todos os lados, com as armas disparando. Os nossos rapazes que estavam mais perto caíram antes mesmo de conseguirem se virar. Os cavalos relinchavam em desespero.
Os homens gritavam. A manhã silenciosa no deserto se despedaçou em sangue e barulho.
Meus músculos ficaram tensos e minha respiração ficou curta. Apoiei meu rifle na pedra, estreitei os olhos, concentrada, e atirei.
Um. Um homem da lei desabou atrás da carruagem.
Dois. Outro cambaleou, segurando a barriga antes de cair.
Três. O terceiro desabou antes que pudesse disparar um tiro.
Mas havia muitos deles. Pelo menos quinze, e eles estavam nos abatendo como urubus em cima de uma carcaça. Um suor frio escorreu pelas minhas costas.
“Droga”, esbravejei, rolando para fora da minha posição e correndo ao longo do cume. Eu tinha perdido a minha vantagem; o tiroteio estava acontecendo do outro lado da diligência.
Vi Hank dando tiros a esmo enquanto recuava. Hamish e Pete correram de volta pelos sopés, com três homens da lei no encalço deles. Os tiros estalavam e espocavam pelo ar seco da manhã, enquanto as balas zuniam pelos meus ouvidos e ricocheteavam nas pedras atrás de mim.
Houve um borrão de movimento quando um dos agentes pulou para cima do teto da diligência com um salto fluido. Seu corpo esguio se agachou em posição, enquanto ele começou a atirar sem medo e de forma metódica em cada um dos garotos que fugiam pelas colinas.
Meu pulso disparou. Ajoelhei-me, mirei e atirei.
O homem da lei virou-se no último segundo, e minha bala errou por centímetros. Um par de olhos cinza-metálicos cravou em mim, frios e calculistas sob a aba do chapéu preto, segundos antes de sua bala zunir pelo meu ouvido, afundando na terra a poucos centímetros do meu crânio.
Pulei de pé e mirei, mas o agente já havia escorregado do teto da diligência, com a capa preta esvoaçando enquanto ele passava para trás da carruagem, sumindo da minha mira.
Xinguei de novo e, rapidamente, mirei e atirei, derrubando todo homem da lei que eu conseguia ver. O estalo agudo do meu rifle ecoava como um trovão pelas paredes do cânion; e cada tiro era respondido com uma chuva de balas ensurdecedora.
Lá embaixo, a gangue estava sendo dizimada. Os homens da lei tinham cobertura; nós estávamos em campo aberto.
Os garotos que ainda não estavam mortos se esconderam atrás dos pôneis apavorados. Aqueles animais empinavam e guinchavam, rasgando a terra com os cascos, enquanto as rédeas chicoteavam o ar.
“Lá em cima!” O homem da lei de olhos cinzentos apontou na minha direção.
Abaixei-me no mesmo instante, enquanto uma chuva de balas estrondava no local onde eu estava de pé. Meu coração acelerou.
Ouvi a Lady relinchar e, quando olhei para onde a tinha amarrado, Norman estava montando nas costas dela e fugindo. Meu Deus, eu daria um tiro e derrubaria aquele homem do meu cavalo se não devesse a minha vida a ele. Fiquei olhando enquanto ele fugia com meu animal, dando esporadas violentas nela para escapar o mais rápido possível.
Covarde de merda. Eu deveria ter atirado nele. Levantei meu rifle para acertá-lo quando uma bala atingiu a terra bem ao lado do meu joelho.
Soltei um grito e rolei para trás, espiando por cima do cume para observar o massacre lá embaixo. As balas zuniam para todos os lados em uma dança horrível e mortal.
Com um movimento treinado, carreguei rapidamente as balas da minha bandoleira na minha Winchester, sem tirar os olhos do meu novo alvo: os pés agachados de um agente atrás da diligência. Mirei, puxei o gatilho e ouvi o grito dele. Quase no mesmo instante, as cabeças dos três agentes restantes apareceram, todos atirando em mim.
Eu me abaixei. Mas não rápido o bastante.
Uma dor ardente no meu ombro me arremessou para trás. Eu ofeguei e rolei ladeira abaixo pela parte de trás do cume, no meio de pedras e terra voando, batendo contra o meu corpo. Meu coração retumbava, e eu me contorcia, agarrando-me com desespero nas pedras que desmoronavam para tentar não cair muito fundo.
Os segundos pareciam horas enquanto o meu corpo rolava ladeira abaixo e meu ombro urrava de dor.
Cheguei ao fundo com um baque surdo que ecoou por todo o meu corpo. Tremi de frio. O sangue quente jorrava do meu ferimento, encharcando rapidamente minha jaqueta de camurça, escorrendo e formando uma poça na areia dourada, levantando vapor.
Minha respiração saía em tremores. Minha cabeça girava. Tentei me erguer.
Olhei para o topo do cume e soltei um suspiro de alívio quando não vi nenhum homem da lei descendo atrás de mim. Eu ainda podia ouvir os gritos e os tiros, mas eles eram em número bem menor agora. Houve um barulho estrondoso de cascos enquanto a carruagem e os pôneis partiam.
Eu podia sentir meu coração batendo forte no peito, e minha respiração passou a vir em pequenos ofegos visíveis no ar. Pressionei a mão contra a ferida para tentar conter o sangramento, mas o sangue quente vazava por entre os meus dedos.
Com a cabeça rodando, a única coisa que eu conseguia fazer era encarar uma solitária nuvem no céu lá no alto enquanto minha visão começava a escurecer e minha respiração travava na garganta. Meu ombro nem doía mais; o meu corpo inteiro estava focado apenas em puxar o próximo fôlego, que se recusava a vir.
Por uma fração de segundo, eu vi o rostinho dele. O pequeno Jamie, chorando em seu berço, estendendo os braços para mim. Suas bochechas macias e quentes, avermelhadas de sono, suas mãos minúsculas abrindo e fechando enquanto ele me procurava.
E o sorriso no rostinho redondo dele quando me avistou. Senti o calor da sua mãozinha fraca no meu rosto e cerrei os dentes, sem conseguir mover o braço e sem conseguir respirar, enquanto a escuridão se infiltrava.









































