
War & Mayhem Livro 5: Redback
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Capítulo 1
Book 5: Redback
UNKNOWN
Do canto da sala, eu os observava rir entre si enquanto jogavam sinuca e bebiam suas cervejas. Os Highway Jokers não eram apenas um motoclube — eles eram a espinha dorsal de Bunbury.
Uma cidade que se curvava à sua vontade. Uma cidade que os temia, os adorava, dependia deles.
Mas eu não vim para Bunbury apenas para servir bebidas e limpar cinzeiros. Eu vim para tomá-la.
E se eu tivesse que queimar a porra dessa cidade até o chão para fazer isso, eu mesmo riscaria o fósforo.
“Prospect! Traz mais uma rodada, cara”, Blackout gritou, sua voz ecoando acima da batida grave de um clássico do AC/DC tocando na jukebox.
Suspirei e me desgrudei da parede, assentindo uma vez antes de ir em direção ao bar. A essa altura, já era memória muscular — sorrir, assentir, servir, desaparecer.
Era isso o que significava ser um prospect. A porra de um fantasma com mãos.
“Mais uma rodada?”, a mulher no bar perguntou, me dando um sorriso que não chegava aos olhos. O nome dela era Shelly, eu acho. Trabalhava aqui meio período, provavelmente pelas gorjetas e pela vista.
Eu assenti.
Enquanto esperava, senti o ar mudar. Alguém deslizou para o meu lado, e o cheiro familiar de seu perfume me atingiu como um gatilho.
Almiscarado, floral. Algo caro e marcante.
“Oi, bebê.” A mão dela escorregou pelo meu braço, leve e provocante.
Virei a cabeça levemente na direção dela, não o suficiente para chamar atenção, mas o bastante para avisá-la de que não era invisível.
“Awn, o que foi?”, ela perguntou, com a voz coberta de açúcar, mas seus olhos eram puro veneno.
“Nada”, disparei, com o maxilar trancado.
Seus olhos piscaram para o grupo de Jokers, calculando algo.
“Só mais algumas semanas até que o Viktor queira você de volta em casa”, ela sussurrou no meu ouvido, com a voz baixa e doce como uma canção de ninar. Uma daquelas feitas para fazer você esquecer a lâmina afiada debaixo do travesseiro.
“O que mais eu posso dar para o cara? Eles não compartilham porra nenhuma — especialmente não com os prospects deles.” Minha voz caiu para um rosnado.
Ela deu um sorrisinho. “Tente se aproximar do capitão de estrada deles. O Redback.”
Eu me virei totalmente para olhar para ela agora, meu estômago já se revirando.
“E o que o Redback tem de tão especial?”
“Eu sei que ele tem uma esposa reservada e uma filha que está a sete palmos do chão. Esse tipo de perda? Às vezes deixa um homem descuidado. Ele começa a procurar analgésicos nos lugares errados.” Ela girou o canudo em sua bebida, sorrindo de canto como se já soubesse como a história iria terminar.
“Achei que o seu tempo com eles tinha acabado.” Eu não queria que soasse amargo, mas foi assim que saiu.
Ela deu de ombros, indiferente. “Não quer dizer que eu parei de observar.”
A barwoman voltou com as jarras.
Fui pegá-las bem na hora em que Blackout gritou de novo, mais alto desta vez.
“Prospect! Anda logo com a porra dessa bebida!”
Soquei o balcão antes que pudesse me segurar. A barwoman deu um pulo e derramou um pouco de cerveja da borda de uma das jarras.
Murmurei um pedido de desculpas rápido, pegando as jarras com uma mão e me virando de volta para a mulher ao meu lado.
“Te vejo por aí, bebê”, ela ronronou, piscando para mim antes de levar o copo aos lábios.
Eu me afastei e fui para a mesa onde os Jokers estavam reunidos. Risadas, cigarros, tampas de garrafa sendo arremessadas.
O cheiro de couro, graxa e dinheiro sujo de sangue enchia o ambiente.
Larguei as jarras na mesa.
“Valeu, cara. Agradeço”, disse Blackout, dando um tapa nas minhas costas forte o bastante para me fazer tropeçar.
Então ele me lançou um olhar — do tipo que não estava mais de brincadeira.
“Se você quer mesmo esse escudo, não pode comer buceta nenhuma.”
Meus olhos dispararam para os dele.
“Palavras do Thrasher”, ele disse, dando de ombros. “Não me leve a mal — é uma merda. Mas, quando o seu coração estiver no clube, você não vai nem sentir falta disso.”
Olhei de volta para o bar, mas ela tinha sumido. Como um fantasma.
Provavelmente era o melhor.
***
Eu finalmente estava fora do expediente.
Depois de uma semana limpando sangue de porta-malas de carros e esfregando vômito dos banheiros do clube, peguei a van e dirigi em direção aos limites da cidade.
Encontrei o único banco de parque que não fedia a mijo e me joguei nele, pegando meu celular descartável e um maço amassado de cigarros.
Acendi um. Soltei a fumaça. Deixei o silêncio me envolver.
Então disquei o número.
“Sou eu”, eu disse.
Viktor não perdeu tempo. “Alguma novidade?”
“A mesma merda de sempre. Viagens, turno no bar, limpeza.”
“Você acha que eu não sei quando está me dizendo um monte de merda?”, ele retrucou. “Você já está aí há bastante tempo. Quero você no arsenal deles. Quero uma lista das viagens que fazem. Quero os malditos arquivos do Thrasher. E se for preciso, transe com as esposas deles até conquistar a confiança delas.”
“Não é tão fácil assim, cara.”
“Eu não tô nem aí pra porra nenhuma!”, ele explodiu. “Você quer o seu escudo de VP de volta em Sydney? Então prove que pode merecer isso. Você tem uma semana.”
A linha ficou muda.
Encarei o telefone. A pressão aumentando no meu peito era um peso que eu não conseguia afastar.
Terminei de fumar, esmaguei a bituca debaixo da minha bota e entrei de volta na van.
Nem percebi o quão rápido estava dirigindo até ver as luzes vermelhas e azuis no espelho retrovisor.
Porra.
Encostei, com o coração palpitando.
“Com o pé um pouco pesado hoje, hein?”, o policial disse ao se aproximar da janela.
“Eu não estava prestando atenção.”
“Desligue o motor e saia.”
“Você não pode só me dar a porra de uma multa?”
“Saia do carro.”
Desliguei a ignição e saí. A mão dele já pairava sobre a arma.
“Mãos na van.”
Eu obedeci. Familiar pra caralho. Cidade diferente, a mesma música maldita.
Ele me revistou. Nada de ilegal comigo.
Mas quando revistou a van, ele encontrou os saquinhos.
Eu nem sabia que eles estavam lá.
“Levante-se. Você está preso.”
***
Horas se passaram. Sem relógios, sem janelas.
Apenas ar viciado, paredes de concreto e o zumbido suave de uma luz piscante acima da minha cabeça que parecia estar perfurando o meu crânio.
Meu joelho não parava de tremer. Tentei fazê-lo parar — tentei parecer imóvel, calmo, no controle —, mas a adrenalina na minha corrente sanguínea tinha outros planos.
Eles não diziam uma palavra havia um tempo. Apenas me deixaram fritando.
Deixaram o silêncio se prolongar até que minha mente começasse a se voltar contra si mesma.
Cada passo distante fora da sala fazia meu coração saltar. Cada porta batendo ecoava como um tiro.
Fiquei repassando os últimos dias na minha cabeça, tentando descobrir como diabos acabei ali.
Então a porta se abriu.
Dessa vez, dois deles entraram.
O primeiro cara — Detetive Alguma Coisa, não entendi o nome dele — sentou-se à minha frente como se estivesse se acomodando para uma conversa casual. O outro ficou perto da parede, de braços cruzados, olhar afiado e na expectativa.
“Vamos deixar você sair sob fiança”, disse o detetive finalmente, com a voz áspera como cascalho. “Se você nos der alguma coisa sobre os Highway Jokers.”
Olhei para ele, impassível. “O que o faz pensar que sou um deles?”
Ele arqueou uma sobrancelha como se eu tivesse acabado de dizer que o céu não era azul.
“Você está com a van deles. Está usando o escudo deles. E o seu clube tem bombardeado o seu telefone de ligações por horas.” Ele se inclinou levemente para frente, com um tom baixo e ponderado. “Nós sabemos quem você é. A única questão é se você quer se ajudar, ou não.”
Me recostei na cadeira, tentando fingir certa calma, como se já não estivesse me desfazendo por dentro. Meus dedos coçavam para checar meu celular, para ver quem havia ligado, mas estava com eles.
Junto com minha carteira, chaves — toda a minha vida agora guardada em um saco plástico de evidências, fora do meu alcance.
Não disse nada.
Eles esperaram. Deixaram o silêncio se intensificar de novo. Era uma tática. Uma sobre a qual eu já tinha lido.
Eles queriam que eu me sentisse encurralado. Isolado. Como se o clube não fosse vir, como se ninguém fosse.
E por um segundo, uma pontada fria de medo se cravou na minha espinha. E se eles não viessem?
Ergui o olhar quando o detetive voltou a falar. “Não estamos pedindo muito. Só uma migalha. Um pedaço. Prove que não está nos fazendo perder tempo.”
Balancei a cabeça. “Não sou um rato.”
“Então aproveite a prisão”, disse o que estava em pé, finalmente se manifestando. “Se quer se fazer de durão, vá em frente. Mas você vai dividir uma cela com alguém que pode reconhecer esse escudo — e que não será nem um pouco tão educado quanto nós.”
Fiquei quieto, com os lábios pressionados em uma linha fina. Eles podiam ver que eu estava escorregando. Eu estava me esforçando pra caralho para aguentar firme.
“Armas”, eu disse finalmente, com a voz rouca por horas de desuso. “Eles viajam uma vez por mês. Armas, não drogas.”
O detetive assentiu lentamente, como se isso não fosse surpresa. “De onde?”
Hesitei. “Não sei. Eu só vou no banco do carona às vezes. Não tenho ideia de onde eles conseguem a mercadoria. Eu não pergunto.”
“E os negócios?”, ele insistiu. “O estúdio de tatuagem. A clínica. Aquele armazém perto das docas.”
Balancei a cabeça. “Não vi nada ilegal. O estúdio de tatuagem é limpo. A clínica é legítima — só ajuda as pessoas que não querem ser questionadas. E o armazém? Pode ser apenas para armazenamento. Pode estar vazio, pelo que eu sei.”
Ele me estudou por um longo momento. Então se levantou e caminhou até a porta. “Isso serve. Por enquanto.”
O outro o seguiu, fazendo uma pausa para me lançar um olhar que não consegui decifrar muito bem. Então a porta se fechou de novo, me deixando sozinho.
Não era liberdade. Mas também não era a prisão.
Ainda não.
***
No segundo em que passei pelas portas da sede dos Highway Jokers, a temperatura caiu dez graus. Todas as conversas na sala pararam. Todas as cabeças se viraram.
Foi como bater de frente com um muro de julgamento silencioso. Minhas botas ecoaram no piso de madeira mais alto do que deveriam, e o clube — que normalmente era só barulho, fumaça e risadas — parecia uma igreja antes de um funeral.
Thrasher estava de pé no centro do salão como se estivesse me esperando. De braços cruzados, com o queixo ligeiramente inclinado para baixo, seu olhar era afiado o suficiente para estripar um homem.
Stone o flanqueava como uma estátua esculpida em raiva, com o maxilar travado e a expressão ilegível.
“Eu te dou metade da porra de um domingo”, Thrasher rosnou, “e você ignora o telefone?”
A voz dele estalou como um chicote através do silêncio. Cada músculo do meu corpo travou.
Eu me forcei a continuar andando até parar na frente dele, resistindo ao instinto de olhar para baixo, de me mexer inquieto. Ele odiava isso. Fraqueza.
“Fiquei sem gasolina”, eu disse, mantendo a voz estável. Sem desculpas. Apenas os fatos.
Enfiei a mão no bolso e tirei o recibo dobrado do posto de gasolina, ainda quente da minha mão, e o coloquei na mesa ao lado dele como uma oferenda.
Thrasher nem olhou para ele. Seus olhos continuaram em mim, frios e inexpressivos. “Você acha que isso importa para mim? Que eu dou a mínima para o seu recibo?”
“Não, senhor.”
“Acha que eu não sei diferenciar uma mentira de um motivo de verdade?”
Abri a boca — mas pensei melhor. Fechei novamente. Nada que eu dissesse iria melhorar a situação.
“Você está sob aviso”, ele disse, dando um passo à frente. Sua voz ficou mais baixa, mais letal. “Mais uma merda que você fizer, mais um momento de silêncio quando o seu clube ligar, e você está fora. Eu não vou repetir.”
Meu coração bateu forte no peito como se quisesse sair. “Entendido.”
Thrasher me encarou por mais um longo momento, como se estivesse tentando decidir se deveria insistir mais nisso ou deixar pra lá. Então, deu um passo para trás.
“Agora vá limpar os dormitórios”, ele esbravejou. “A filial de Perth vai chegar amanhã. Quero aquele lugar impecável. Me ouviu?”
“Sim”, resmunguei com a voz rouca. Limpei a garganta e tentei de novo. “Sim, senhor.”
Ele se virou sem dizer mais nada e foi embora, com Stone o seguindo como uma sombra.
No momento em que eles desapareceram no corredor dos fundos, a tensão no salão diminuiu. As conversas recomeçaram em murmúrios baixos.
Alguns caras me observavam enquanto eu me dirigia para as escadas — alguns com pena, alguns se divertindo, e alguns apenas felizes por não serem eles na linha de fogo.
Subi as escadas de dois em dois degraus, com a garganta seca e as palmas das mãos suando.
Um aviso. Era só isso que me restava.
E a filial de Perth chegando amanhã? Isso significava que todos estariam de olho.
Sem mais margem para fazer merda.
















































