
O Que Aconteceu com Erin?
Author
Mbali Mgoqi
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Capítulo 1
... Eles não sabem de nada, sua mente lhe diz, e nunca vão saber.
No Departamento de Polícia de Braidwood, Mia Trinket se remexe na cadeira. Ela não consegue ficar quieta. Tenta parar de tremer, mas seu corpo não obedece. Está preocupada demais para se controlar.
O medo não precisa de portas e janelas. Ele vem de dentro de você.
Esta não é a primeira vez dela numa delegacia, e ela sabe que não será a última.
O coração de Mia pesa no peito. A porta atrás dela faz um barulho e ela continua olhando para o próprio colo.
Passos firmes entram no escritório e o Detetive Russo aparece no canto da sua visão. Ele contorna a mesa e se senta na cadeira de couro.
“Desculpe a espera. Como está, senhorita Trinket?”
Ele pega seu bloco de notas. Depois de colocá-lo à sua frente, pega uma das canetas pretas de um porta-canetas prateado.
Ele a observa por um longo tempo.
“Como está se sentindo, senhorita Trinket?” Ele repete a pergunta, desta vez trazendo-a de volta ao momento presente.
“Estou bem, só nervosa.” O medo batendo dentro dela como se estivesse vivo. Sua boca está muito seca. “Vou me atrasar para meu primeiro dia de volta às aulas. Não é um bom começo.”
O Detetive Russo acena como se entendesse. “Você está no último ano, certo? Este ano é seu último na Braidwood High antes de se formar?” ele pergunta, segurando a caneta.
“Sim.”
“Você conhece Keila Venus?”
Suas sobrancelhas se franzem, e ela acena que sim.
“Vocês duas são amigas?”
Mia fica menos segura. “Nós... éramos.”
O Detetive Russo se endireita na cadeira, olhando para ela com um olhar frio e atento. “Todos os alunos voltarão para a escola hoje. Exceto uma. Keila Venus.”
Seu sangue fica gelado.
O detetive observa seu rosto empalidecer. Muito pálido.
“Você não sabia disso? Que no final das férias de verão, Keila desapareceu e até hoje ninguém a viu?”
Ele lhe dá um momento para processar essa nova informação.
Mia para de se mexer. Confusa. Chocada, mas de alguma forma, não surpresa.
“Então, você disse que eram amigas de Keila Venus? Vocês brigaram?”
Os olhos de Mia se arregalam, e ela lentamente olha para ele.
“Não. Nós só... nós só paramos de ser próximas” ela diz com voz trêmula. “Não passamos tempo juntas nem conversamos há anos.”
O Detetive Russo acena e olha para baixo para escrever algumas palavras no bloco. Mia não consegue lê-las de onde está sentada.
“Interessante, porque a mãe dela disse a mesma coisa. Mas quando a equipe forense examinou o quarto dela, encontraram um álbum de fotos inteiro e scrapbooks de vocês duas. Fotos suas, de Keila Venus, Aries Black, Opal Chiang, Akin Ballo e Erin Lockwood. Juntos. Mas muito mais jovens.”
O medo dentro dela é como um veneno sem cura.
“Todos nós temos nosso passado, Detetive, mas... uh.” As palavras saem em pedaços. “Como ela desapareceu? Quem foi a última pessoa a vê-la? E onde ela foi vista pela última vez?”
O Detetive Russo levanta uma sobrancelha diante de todas as perguntas.
“A mãe dela diz que ela saiu de repente à noite. Ela pensou na hora que era para uma corrida noturna. Mas quando acordou, Keila não tinha voltado e suas roupas de corrida ainda estavam no quarto.”
Mia aperta as mãos para impedi-las de tremer.
“Assim que a notícia for divulgada, uma busca em toda a cidade começará com cães policiais e todo o DPB para vasculhar a floresta...”
“Ela não está lá” Mia interrompe.
O Detetive Russo se inclina para frente, e a caneta cai sobre o bloco para que ele possa juntar os dedos, olhando de volta para ela com perguntas nos olhos.
“Olha” ela começa. “Keila e eu nos conhecíamos quando éramos crianças, sim. Mas muita coisa pode mudar em sete anos, embora uma coisa não mude, e isso é o medo de Keila da floresta. Se ela foi levada, procurem o quanto quiserem. Mas se Keila fugiu por conta própria, ela preferiria passar um dia no inferno do que um minuto naquela floresta.”
Uma expressão cruza o rosto do Detetive Russo que é difícil de ler.
Sem desviar o olhar, ele se inclina para o lado para abrir a segunda gaveta da mesa, pega um arquivo de caso da pilha de cima e o coloca com força à sua frente.
Ele empurra a gaveta fechando-a e junta os dedos sobre o arquivo.
“Você está falando sobre a coisa ruim que aconteceu com ela, e com você, sete anos atrás? Quando Erin Lockwood desapareceu na floresta também?”
Seus olhos escurecem com dúvida.
“Exceto que ela tinha pessoas que a viram desaparecer. Você, Keila Venus, Aries Black, Opal Chiang e Akin Ballo. Se eu não soubesse melhor... eu acharia que estou vendo um certo... padrão” ele diz com firmeza, sua voz cheia de desconfiança.
Mia se agarra à sua calma, a mandíbula tensa. “O quê? Você realmente acha que nós tivemos algo a ver com aquilo?”
“Tiveram?”
Irritada, Mia enfia a mão pelo decote da blusa de manga comprida, procurando seu colar de ouro.
Ela puxa o pingente que pende na ponta — metade de um coração com uma linha irregular quebrada na lateral. A palavra “Best” está escrita na metade do coração que ela usa.
“Nós éramos crianças. Erin Lockwood era uma das minhas melhores amigas e Keila fazia parte disso. Nós nunca machucaríamos umas às outras. Eu admito...” Mia para de falar, e força as palavras através dos dentes cerrados.
“Depois do que aconteceu com Erin... todos nós seguimos caminhos separados. Não por causa uns dos outros, mas porque não sabíamos como lidar com...” ela se interrompe, escolhendo as próximas palavras com cuidado.
“Eu não sei o que aconteceu com Keila, mas quero fazer qualquer coisa que eu possa para ajudá-lo a encontrá-la.” O polegar de Mia esfrega as bordas gastas do pingente. “Qualquer coisa...”
O Detetive Russo a observa atentamente e acena com a cabeça.
“Você está livre para ir, senhorita Trinket. A escola já foi informada e eles vão anunciar que ela é, oficialmente, uma pessoa desaparecida na assembleia.”
Mia acena com a cabeça e se inclina para pegar a alça da mochila com o braço. Ela se levanta e coloca a alça sobre o ombro. Vira-se e caminha rapidamente em direção à saída.
Ao chegar à porta, ela olha para trás.
O Detetive Russo abre o arquivo do caso e começa a examiná-lo.
Ela continua andando, deixando a porta escancarada porque está com pressa.
Mia dá alguns passos à frente no corredor escuro. E de repente, algo apertado comprime seu peito, dificultando a respiração sob um peso pesado de culpa. Seu braço dispara para pressionar a mão contra a parede para se equilibrar.
O Detetive Russo observa Mia por trás, olhando com metade do corpo aparecendo na porta.
Mia abaixa a cabeça por um segundo, respirando com dificuldade antes de sua cabeça se erguer novamente. Ela tira um momento para controlar seus sentimentos, interrompendo seu pânico.
Instável, ela continua caminhando até a escadaria, passando por um borrão azul e preto de policiais para sair da delegacia.
Quando Russo volta ao seu escritório, pensamentos dispersos se juntam numa ideia. Logo, ele se senta atrás da mesa e começa a examinar todas as informações reunidas sobre o caso Erin Lockwood.
***
Eu nunca soube então como uma garota adolescente poderia quebrar meu mundo inteiro por dentro. Enfrentei muitos perigos durante diferentes casos, mas nenhum perigo como o caso Erin Lockwood.
Nenhum perigo maior do que ela, do que todos eles.
Eu pensei que o trabalho seria difícil de fazer, mas simples na sua ideia; encontrar as garotas desaparecidas e pegar a pessoa que fez isso.
Mas o que aconteceu em seguida me levou perto da loucura e jogou Braidwood no caos.
O desaparecimento de Keila foi a morte chamando.
O desaparecimento de Erin foi o verdadeiro início da destruição.
INTERLÚDIO: Céu da Meia-Noite
SETE ANOS ATRÁS
O Dia do Desaparecimento de Erin Lockwood
A lua era como uma bola fantasma prateada, o luar vinha de cima, manchas prateadas no chão enquanto os galhos se moviam, afastando o frio de seus ossos.
Mia caminhava devagar à frente. As plantas molhadas do chão da floresta pressionavam entre seus dedos dos pés, fazendo sons molhados sob seus pés descalços a cada passo.
Keila tremia ao seu lado. O vestido vermelho de verão que usava estava coberto de sujeira.
As pernas longas e finas de Akin tremiam, sua mão segurando o lado.
O braço de Opal estava sobre os ombros de Aries e o braço dele estava em volta da cintura dela, o que a mantinha de pé ao seu lado enquanto ela pulava numa perna só.
Todos eles saíram da floresta, feridos, quebrados e mudados para sempre de forma ruim.
Logo, tudo o que podiam ouvir eram os sons altos de sirenes que gritavam no céu da meia-noite, pneus fazendo barulho enquanto quatro carros de polícia chegavam à cena.
Oito policiais saíram correndo de seus carros, rápida mas cuidadosamente se aproximando das crianças confusas.
Luzes azuis brilhantes refletiam nos olhos de Mia que não piscavam enquanto uma policial se aproximava dela. Mia ficou parada — congelada — presa num estado em que não conseguia se mover.
Ferida pela imagem terrível do corpo ressecado de Erin, sem se mover, e a luz em seus olhos apagada para sempre.
“Ei, eu sou uma policial.” A policial apontou para a estrela presa em seu peito. “Não vou machucá-la. Estou aqui para ajudar.”
Mia ficou parada, entorpecida e sem responder.
A policial se moveu para ficar bem na frente dela e se abaixou. Ela levantou as mãos para segurar o corpo pequeno de Mia.
Mas no momento em que tocou a pele nua da garota, Mia pulou como se tivesse sido queimada e respirou fundo como se tivesse sido atingida. Seus olhos piscaram rapidamente, olhando de um lugar para outro enquanto a verdade terrível do que havia acontecido finalmente ficava clara para ela.
“Jim!” um policial disse alto. Ele colocou a mão no ombro fino de Akin com firmeza.
“Este aqui diz que o outro amigo dele ainda está na floresta” ele disse ao outro policial, que havia pegado uma Opal chorando e a estava carregando para o banco do passageiro de um dos carros de polícia.
“Carter, John. Vão com Jim e encontrem a outra criança” ele ordenou. Os três policiais correram para dentro da floresta, engolidos pela escuridão enquanto os outros quatro ficaram e ajudaram as cinco crianças.
“Vamos levá-la para o carro, aquecê-la” a policial disse suavemente e esfregou os braços de Mia, a fricção gerando calor rápido. “E levá-la de volta à delegacia. Seus pais estão muito preocupados.”
Ela moveu a mão e a colocou atrás do ombro da garota para guiá-la gentilmente.
Mia recusou e se afastou de seu toque.
“N... não. Eu... eu tenho que voltar! Ela precisa de mim!” Mia gritou descontroladamente, e se virou para correr de volta para a floresta.
A policial pulou para frente e rapidamente envolveu seus braços em torno do corpo pequeno dela.
Mia lutou e gritou em protesto. “Ela precisa de mim! Ela... precisa de mim.”
Seus gritos ficaram mais baixos e suaves em pequenos choros enquanto ela abaixava a cabeça. Lágrimas encheram seus olhos e desceram suas bochechas sujas em linhas, limpando um caminho.
A policial recuou mas manteve Mia à distância de um braço, movendo-a para que pudesse encará-la completamente. A cabeça da garota ainda estava baixa, e ela tentou fazer Mia olhar em seus olhos.
“O que você quer dizer, querida? O que aconteceu com ela?”
Mia levantou a cabeça devagar, e a policial olhou de volta para seus olhos assustados.
“Eu... eu a matei... uh, um” ela disse com voz trêmula.
Os olhos de Rebecca se arregalaram com alarme, cheios de um medo que ela não conseguia nomear.
Ela usou uma voz séria. “Ei, preciso que você preste atenção para mim. Qual é o seu nome?” ela perguntou com firmeza.
“Mia.”
A policial acenou e mostrou um sorriso para encorajá-la.
“Isso é bom, Mia, muito bom. Meu nome é Rebecca.” Ela bateu a mão no peito e a colocou de volta no ombro de Mia.
“Preciso que você me faça um pequeno favor. Pode fazer isso por mim?”
A cabeça trêmula de Mia acenou que sim.
“Pode me dizer o que aconteceu aqui?” ela perguntou, e olhou rapidamente para a floresta. Seus olhos voltaram para o rosto de Mia, que parecia muito triste.
Mia levantou a mão para segurar o pingente que pendia de seu pescoço.
“Mia.” Seco.
“O que aconteceu?” ela perguntou com firmeza.
Mia cedeu, e sua mão caiu para o lado.
“Eu a matei. Eu nunca quis” ela chorou baixinho, lágrimas enchendo novamente. “Eu não tive escolha.”
A boca de Rebecca se abriu.
“Eu a matei.”

















































