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Corações Selvagens. Livro Número 2. Reacender

Autor
Marie Scully
Leituras
19.2K
Capítulos
38
Autor
Marie Scully
Leituras
19.2K
Capítulos
38
😱Suspense🏡Dia-a-dia😌Segundas chances⚔️De inimigos a amantes💘Primeiro amor🏙️Contemporâneo💪🏻Protetor💪Mulheres fortes⚔️Ação & aventura👩🏻‍🍼Mães🤠Cowboys🏡Cidades pequenas & zona rural

Megan volta para casa com o coração já fragilizado, esperando que possa entrar de fininho, recuperar o fôlego e sair novamente antes que velhas feridas despertem. Mas sua cidade natal tem seus próprios planos — começando por Ben, que insiste em aparecer no exato momento em que ela jura que já o superou. Ele parece diferente, age diferente e, de alguma forma, faz o passado parecer mais suave e mais nítido ao mesmo tempo.

Ela diz a si mesma que é apenas temporário, que partir é o plano mais seguro. No entanto, cada olhar compartilhado desperta algo que ela pensou ter enterrado, e cada quase encontro os aproxima ainda mais. Ficar longe um do outro? Sem a menor chance.

Capítulo 1: O Longo Adeus

MEGAN

Quanto mais nos aproximamos do aeroporto, mais silencioso o carro fica. Os olhos de Ben continuam fixos na estrada. Fiquei surpresa quando ele apareceu esta manhã para me levar ao aeroporto. Eu estava prestes a pedir um Uber quando ele chegou.
Eu esperava que ele tentasse me convencer a ficar durante a viagem, mas só tivemos conversas banais.
O nervosismo toma conta de todo o meu corpo, me fazendo cutucar as unhas. Eu sempre conseguia encontrar um assunto para conversar com o Ben no passado; agora parece que nós dois ficamos sem ter o que dizer. Isso está partindo meu coração.
“Ben.”
Ele tira os olhos da estrada para olhar para mim. “O quê?” ele pergunta, com a voz embargada pela emoção.
“Nada,” eu digo.
Na verdade, eu nem sabia o que ia dizer mesmo. Voltamos ao silêncio. Talvez seja mais seguro assim. Mais dez minutos se passam sem que nenhum de nós diga nada. A saída para o aeroporto está logo à frente.
Se houver alguma coisa a ser dita, preciso dizer logo, ou nunca mais direi. Eu sei que quando eu for embora, tudo vai mudar. Tudo o que eu quero dizer passa pela minha cabeça, mas nada faz sentido.
Ele estaciona a caminhonete na vaga mais próxima do balcão de check-in da companhia aérea, depois salta e pega minha mala na caçamba. Fico sentada no carro por mais um minuto antes de me juntar a ele. Ele empurra a mala até mim.
“Tem certeza de que quer fazer isso, Megan?” ele pergunta.
Uma única lágrima escapa do meu olho. “Tem certeza de que não quer vir? Você pode gostar de Nova York.”
Ele engole em seco antes de responder. “Você sabe que eu não posso. Eu preciso ficar aqui. Este lugar nunca foi o suficiente para você. Eu soube disso no primeiro dia em que te conheci. Você sempre foi feita para coisas maiores e mais brilhantes, embora eu tivesse esperança de ser o suficiente para você, mesmo que este lugar não fosse.”
Eu aceno com a cabeça. “Você foi o suficiente para mim por um longo tempo, Ben. Você sabe disso. Você é a razão pela qual eu fiquei aqui por tanto tempo. Acho que nós dois esperávamos que o outro mudasse, e talvez a gente tenha mudado um pouco, mas não o suficiente.”
Nós nos encaramos por um tempo que parecem horas. Eu sei que se ele disser mais alguma coisa, vou mudar de ideia e ficar. E se eu fizer isso, nunca irei embora. Mas ir embora é algo que estou fazendo por mim mesma. Eu preciso disso.
Puxar a alça da mala é a minha confirmação final para nós dois de que estou indo, mas ele não diz nada enquanto me inclino para frente e encosto meus lábios em sua bochecha para a nossa despedida.
Viro as costas para o Ben e puxo a mala grande em direção às portas do aeroporto sem dizer mais nenhuma palavra. Não olho para trás. Sinto o seu olhar intenso sobre mim, me desafiando a olhar para trás. Me desafiando a mudar de ideia. Mas eu não olho.
As portas automáticas se abrem, e o som do aeroporto movimentado me recebe. Vai ser bom para nós dois. Nós dois vamos crescer como indivíduos e talvez um dia possamos ficar juntos de novo, embora, no mínimo, sempre seremos amigos.
Nós dois vamos ver que essa é a melhor decisão para cada um de nós. Só vai levar algum tempo. Apenas isso.

MEGAN

QUATRO ANOS DEPOIS
Estou sentada na minha cadeira dura do escritório, encarando o meu celular. O aviso da chamada que eu ignorei de propósito e do correio de voz não lido me provocam. Eu penso em jogar o celular na minha bolsa, mas isso seria evitar o inevitável.
Eu esperava que quando eu ignorasse a ligação da Danny, ela não deixasse um recado. Eu deveria saber que isso não iria acontecer.
Deslizando a tela para abrir o correio de voz, espero pelo som da voz dela. Faz muito tempo desde a última vez que a ouvi. Por um tempo, tentei me manter conectada a ela, a todos eles. Eu via uma chamada perdida aqui e ali, e sempre planejava ligar de volta.
Mas os problemas foram surgindo. As semanas viraram meses, e os meses se transformaram em anos. Depois, eles simplesmente pararam de ligar de vez. Segundos passam antes da Danny começar, como se ela estivesse pensando se deveria deixar um recado ou não.
“Sinceramente, não sei por que me dei ao trabalho de ligar. O Liam disse para deixar para lá, mas eu simplesmente não consigo. Caso você não saiba, sou eu quem tem te defendido por anos desde que você sumiu da face da terra. Mas para isso agora, eu não tenho nenhuma desculpa.
“Ele morreu, Megan, e você nem se importou em aparecer. No que diabos você se transformou? O pai do Ben morreu e você... você não faz nada. Não, espera, me desculpe; você mandou flores. Me perdoe, eu tinha esquecido disso.” O sarcasmo na voz dela não passa despercebido.
“A sua vida é tão agitada que você não pôde voltar para o funeral. Eu sei que você e o Ben não se falam há um tempo e que brigaram, mas isso não é motivo para você não aparecer!” Posso ouvir o Liam tentando acalmá-la ao fundo. “Aproveite a sua vida.”
O correio de voz termina. Afasto o celular do ouvido e o coloco virado para baixo na minha mesa de madeira escura, não querendo mais lembrar do que acabei de ouvir. Respirar fundo para me acalmar, como a Becky sempre me diz para fazer, não ajuda em nada a controlar minhas emoções.
Eu sabia que receberia aquela ligação de alguém. Para ser sincera, eu imaginava que seria da Danny. Os outros já tinham ficado em silêncio há anos.
O escritório grande parece sufocante, com as paredes brancas se fechando sobre mim, as pilhas de pastas bege e vermelhas rindo da minha cara. Ainda assim, tento respirar. Os ataques de pânico são algo recente. Eu os tinha quando era criança, mas eles desapareceram por um bom tempo.
Eles voltaram algumas semanas atrás quando perdi um caso. Não havia nada de anormal naquele caso para causar uma reação tão forte. Assim que o veredito foi lido, senti como se todos na sala estivessem olhando para mim, julgando os meus erros.
Saí correndo do tribunal como se a polícia estivesse vindo me prender, e não o meu cliente. Eu me escondi no banheiro para deficientes, sentei no chão frio de azulejos e fiquei balançando para frente e para trás pelo que pareceram horas, até que finalmente consegui me controlar. Desde então, isso tem acontecido com mais frequência.
“Megan, seu cliente das dez horas chegou.” Ouvir a voz da Kathy, minha assistente, não ajuda. Não consigo responder a ela agora. Eu preciso de um segundo, apenas um segundo. “Megan?” A pergunta preocupada ecoa pelas paredes, exigindo uma resposta.
Respirando fundo mais uma vez, forço as palavras a saírem da minha boca. “Sim. Sim, claro. Preciso de um minuto, depois pode mandá-lo entrar.”
“Tem certeza?” ela pergunta.
Eu não preciso que ela me questione. Eu não preciso que ninguém me questione. Preciso recuperar o controle. Eu me levanto, com os joelhos trêmulos que felizmente ficam escondidos atrás da grande mesa de carvalho. Fraqueza só atrai mais fraqueza. Coloco firmeza na minha voz. “Sim, tenho certeza.”
A Kathy se move para fechar a porta, mas antes que ela o faça, eu digo: “Kathy.” Ela se vira novamente. “Não me questione de novo.”
A Kathy sai da sala de cabeça baixa, apenas para reaparecer com o meu mais novo futuro cliente, Victor Bull, o CEO da Bull Enterprises, ou melhor, a segunda maior empresa de marketing de Nova York.
Dando a volta na minha mesa, caminho até ele e aperto sua mão a uma distância razoável. O Victor está no final dos seus cinquenta anos, com cabelos grisalhos, mais brancos nas têmporas. Para um homem mais velho, ele ainda parece se cuidar mantendo-se em forma.
Seus pequenos olhos castanhos encontram os meus. Ele exigiu uma reunião comigo na semana anterior. Eu disse a ele que não tinha horários disponíveis, e que teria que ser na semana seguinte. O que ele não sabia é que eu tinha um horário na semana passada, mas eu não lido muito bem com exigências.
O Victor me dá um sorriso astuto e se move para a cadeira de couro do outro lado da minha mesa.
“Como posso ajudá-lo, Sr. Bull? Pela sua ligação na semana passada, parecia ser urgente.” Sentando-me na minha cadeira, me inclino para frente, cruzando as mãos sobre a mesa.
Ele limpa a garganta antes de responder. “Eu não estou aqui por mim mesmo, é claro.” Eles nunca estão. “Estou aqui por causa do meu filho.” Eu aceno com a cabeça. “Ele foi preso sob acusações de fraude na semana passada.”
“Ele fez isso?” eu pergunto, sem realmente me importar com a resposta, mas curiosa sobre a reação dele. Eu consigo descobrir muito sobre uma pessoa se ela mentir para mim nos primeiros cinco minutos.
“Isso importa?” ele pergunta, como se nunca tivesse sofrido uma consequência.
“É claro que não. Só estou me perguntando com o que vou trabalhar.” Eu respondo com sinceridade. A maioria dos meus clientes são culpados, e desde que possam pagar, isso não me preocupa. Felizmente, não é ilegal defender culpados.
“Eu preciso do melhor advogado que existir. E, pelo que ouvi dizer, essa advogada é você. Dinheiro não é problema.” Ele diz isso em um tom que significa: Vamos logo com isso.
Dinheiro nunca é um problema para os meus clientes. “Conte-me mais sobre o seu filho e o que você sabe sobre as provas que eles podem ou não ter contra ele.”
UM ANO DEPOIS
O pesadelo era o mesmo dos últimos quatro meses. Nunca mudava, por mais que eu desejasse que o final fosse diferente. Eu ansiava que a realidade fosse diferente.
Correndo para o hospital ainda de pijama, corro em direção ao quarto deles, esperando que o pior não acontecesse por algum milagre de Deus. Toda vez que chego lá, o médico sai do quarto, me impedindo antes que eu possa entrar.
Me segurando pelo que parece uma eternidade. É aí que eu sei que acabou. Não quando recebi a ligação; ainda havia esperança naquela hora; não quando corri para o hospital; ainda havia um pingo de esperança.
Tudo é destruído pelo olhar no rosto do médico. Empurrando-o para o lado, corro até a cama dela, sabendo, mas ainda esperando que não seja verdade, esperando que o som do monitor cardíaco preencha o quarto.
O rosto dela está quase irreconhecível por causa do acidente de carro. Segurando sua mão, eu ainda espero que ela acorde e abra os olhos. Coberta de hematomas escuros, a Becky morre quinze minutos após chegar ao hospital.
A pior parte é que o sonho nunca termina aí. Eu tenho que reviver a ida até a casa deles, mandar a babá ir embora, e acordar as crianças para dizer o que aconteceu.
A Ava, a mais velha, soube no momento que olhei para o rosto do médico que eles tinham partido. O sonho finalmente me tira do meu sofrimento no cemitério, onde toda esperança morre debaixo da terra.
É incrível o que um único momento na vida de alguém pode mudar. Desde as mortes deles, eu tenho me sentido como um peixe fora d'água, incapaz de respirar e agindo sem pensar.
Meus pais se mudaram para a Europa três anos antes e estavam aproveitando a vida de aposentados quando receberam a ligação. Eles voltaram para os funerais, mas então precisávamos decidir o que fazer com as crianças.
Os pais do Paul morreram anos atrás, e como ele era filho único, sobrou para mim. Meus pais se ofereceram, mas aquela não é a vida ideal para crianças que precisam ir à escola, e isso seria ainda mais uma mudança nas vidas delas.
Eu não sabia quanto mais eles aguentariam. Isso me deixou com apenas uma opção: eles teriam que ir morar comigo.
A Becky sempre teve um lado maternal. Eu, por outro lado, nunca quis ter essa responsabilidade. Aos vinte e oito anos, eu não esperava estar onde estou agora, tendo que cuidar de uma adolescente de dezesseis anos agindo como se tivesse doze, uma de doze agindo como se tivesse dezoito, e um menino de oito anos que falou talvez umas dez palavras desde que os pais morreram.
A minha esperança de que a Ava seria prestativa foi destruída quando tive que ir a uma festa na casa de um garoto qualquer e tirá-la de lá bêbada. A Becky e o Paul estariam tão orgulhosos de todos nós.
“Foda-se isso,” eu resmungo e empurro as cobertas do meu corpo. Vou para o escritório. Se eu vou ficar acordada, é melhor eu ir trabalhar.
Passo pelo quarto do Sam e da Maddie e verifico como eles estão. Estão dormindo profundamente, e espero que estejam sonhando com borboletas ou seja lá com o que as crianças sonhem.
Continuando pelo corredor, paro no quarto da Ava e abro aquela porta também. Encontro uma adolescente assustada entrando de volta no quarto pela janela. Os sapatos estão nas mãos dela, a maquiagem toda borrada, e o seu cabelo loiro na altura dos ombros está uma bagunça. O olhar surpreso dela encontra o meu.
“Tia Megan, eu posso explicar...”, ela começa a gaguejar.
Levantando a mão, eu a interrompo. “A noite foi boa?” Ela abre a boca para responder, mas eu a corto novamente. “Isso não pode continuar acontecendo. Vá dormir. Isso não vai acontecer de novo.” Com esse aviso, fecho a porta bruscamente.
Balanço a cabeça enquanto finalmente chego ao meu escritório. Ao me sentar, a primeira foto que vejo é da Becky, do Paul e eu no casamento deles. Faço o contorno dos rostos deles com a ponta do meu polegar.
“Me desculpem,” eu sussurro para os fantasmas na sala.

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