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Bruxa Muito Louca: Livro 3

Autor
Cherry Redwood
Leituras
16,0K
Capítulos
44
Autor
Cherry Redwood
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Capítulos
44
⚔️Ação & aventura💪Mulheres fortes🧙‍♂️Sobrenatural & fantasia🧙‍♀️Magos & bruxas🐉Fantasia

Durante o Mardi Gras, a bruxa Adela “Addie” Baldovino chega a Nova Orleans disfarçada de homem, carregando um caixão que guarda o corpo de Mateo — o homem que ela se recusa a perder. Quando o caixão desaparece de um anexo trancado, Addie é atraída para a magia secreta da cidade: salões elegantes, barganhas perigosas e os olhos atentos de Marie Laveau e Baron Samedi. Para recuperar Mateo, ela terá que enganar a alta sociedade e quem quer que o tenha roubado primeiro.

Mardi Gras

As luzes, os sons e as cores deixavam Addie completamente sobrecarregada. Ela se agarrava à mão de Kitty como se a vida delas dependesse de continuarem juntas.
Essa era, muito provavelmente, uma suposição sensata, dada a situação em que se encontravam.
Addie e Kitty apressaram o passo pela rua em meio a um mar de pessoas agitadas, vestindo fantasias vibrantes e misturadas, sob a luz de tochas e lampiões a gás. Rostos falsos as encaravam com malícia, mascarados ou pintados. Esqueletos dançavam com anjos.
Confetes rodopiavam pelo ar noturno como cinzas após um grande incêndio. Figuras grotescas esbarravam nas duas, cheirando a suor, uísque e cascas de laranja.
Era quase impossível pensar no meio daquele barulho todo. Bandas de metais, gritos de risadas e o bater de pandeiros se misturavam e ensurdeciam Addie. Ela estava grata por estar de calças; pelo menos seus movimentos não eram atrapalhados por saias.
Seus pés esmagavam conchas de ostras, e ela por pouco não pisou em esterco de cavalo. Flores pisoteadas e pedaços rasgados de roupas chiques se espalhavam pelo chão da rua.
Se estivesse menos desesperada, ela poderia ter planejado a chegada para uma época mais tranquila do ano. Mas era Mardi Gras em Nova Orleans, e o povo da cidade celebrava com um abandono selvagem.
A multidão pulsava como um único organismo. O povo se apertou contra Addie, que puxou a mão de Kitty para a frente do corpo para segurá-la com as duas mãos. Os foliões pareciam não se importar com o pequeno grupo: meia dúzia de homens carregando baús de viagem e um caixão.
Addie suspeitava que seu feitiço para não chamar atenção tinha algo a ver com aquilo. As pessoas de quem elas se aproximavam davam espaço para passarem, talvez incomodadas com a presença do simples caixão de pinho nos ombros dos homens que seguiam Addie e Kitty.
Os olhos de Kitty absorviam tudo, arregalados como pires, com a boca aberta. A menina de oito anos não se parecia em nada com o seu eu normal; Addie tinha cuidado disso. Addie achou irônico que ela e Kitty também estivessem disfarçadas, mas de um jeito totalmente diferente das pessoas da Cidade Crescente.
O ar estava pesado, com cheiro de massa frita, perfume barato, umidade do rio e o cheiro doce de podridão das oferendas esquecidas nas esquinas. O estômago de Addie revirava de nervosismo e fome. Sem dúvida, Kitty também estava faminta, mas Addie não se atrevia a parar.
Elas seguiram para uma pensão no Faubourg Marigny, um pouco abaixo do Bairro Francês, seguindo o rio. Addie pensou no medalhão da Medusa que pendia em seu pescoço. Ela podia sentir o círculo de metal pressionado contra a curva amarrada de seus seios.
Quando chegassem à pensão, ela o mostraria para a Sra. Orsini. Ela já tinha feito isso na chegada à estação de trem, para os homens que agora carregavam o caixão.
Elas viraram da rua Royal para a Avenida Esplanade. Era uma avenida grandiosa e arborizada com carvalhos, que servia como uma costura entre o caos do Carnaval e os bairros residenciais. O barulho diminuiu para um estrondo abafado. A luz a gás deu lugar a lanternas balançantes em menor quantidade.
O ar cheirava a terra úmida, folhas apodrecendo, névoa do rio, uma fumaça fraca de lenha e o doce aroma de podridão das folhas de magnólia da última estação.
Elas entraram no Faubourg Marigny. Casas crioulas estreitas com varandas de ferro forjado se espremiam umas contra as outras. Ao longe, o som da folia continuava, mas, mais perto, Addie ouviu um único piano tocando em um bar na esquina. Figuras em entradas escuras as observavam passar.
A noite estava fria e úmida, e o ar gelado penetrava agora que a pressão da multidão havia diminuído.
“Nossa senhora”, disse Kitty, como se tivesse acabado de recuperar o fôlego. “Eu nunca vi nada igual antes! As pessoas estavam usando máscaras e penas! Você viu?”
O disfarce não tinha mudado muito a voz de Kitty, mas a de Addie saiu bem mais grave. Ela ainda achava isso assustador, mas tinha sido necessário.
“Sim, eu vi”, disse Addie, dando um aperto na mão de Kitty.
“A gente nunca teve uma festa dessas lá em Copperwood”, comentou Kitty.
“Não”, concordou Addie. “Acho que não há muitas pessoas em Copperwood que comemorem o Mardi Gras.”
“O que é isso?”
“É parte da crença católica”, disse Addie. Ela explicou sobre o Carnaval e a Quaresma. “O termo 'Mardi Gras' significa 'Terça-feira Gorda', porque é o último dia em que os fiéis podem comer comidas pesadas antes da Quaresma, quando eles devem se abster das tentações.”
“Por que não temos isso em Copperwood? É uma festa e tanto.”
“Acho que a maioria das pessoas em Copperwood não liga para as tradições católicas”, disse Addie. “Exceto, talvez, os Byrnes. E mesmo eles achariam uma festa assim muito exagerada.”
As pessoas de Copperwood eram, em sua maioria, imigrantes alemães e seus descendentes, com alguns ingleses e irlandeses. O Pastor Easton comandava a igreja, e o Pastor Easton era, com toda a probabilidade, luterano, embora essas coisas nunca fossem discutidas.
Ele certamente era rigoroso o suficiente para ser um luterano, pensou Addie. A esposa e a irmã dele costumavam passar os dias atormentando Vic Walley no bar com seus panfletos contra o consumo de álcool.
Claro, a irmã do Pastor Easton e Vic Walley agora estavam mortos. Foram mortos na terrível batalha no Portão do Inferno, nos Bosques do Norte, junto com muitos outros moradores da cidade.
Addie franziu a testa e afastou a sensação de enjoo que surgiu nela com aquele pensamento.
Demônios. Nada de bom poderia vir de lidar com demônios.
Ao avistar uma placa pintada em um portão a poucos metros de distância, o passo de Addie diminuiu.
Além do portão de ferro forjado, havia uma casa comprida de dois andares, com as tábuas de madeira desbotadas para um cinza suave. A placa simples dizia: “Orsini. Quartos.” Um único lampião brilhava na janela da frente. O pequeno quintal estava arrumado. Os olhos afiados de Addie reconheceram alecrim e manjericão. Eles cresciam bem no clima úmido.
Ela sabia pouco sobre a senhora que tinha concordado em hospedá-la. Ela só conseguiu o contato por causa da prima da Vovó, Livia Beccari. Por mais que Addie pensasse naquela mulher com ressentimento, tinha que admitir que ela a tinha ajudado, na medida em que foi ela quem deu a Addie uma maneira de viajar para Nova Orleans. Um lugar para ficar.
Não que isso não tivesse custado nada para Addie. Ela havia enviado o pagamento adiantado, na verdade. Ela só esperava que a Sra. Orsini honrasse o acordo e reconhecesse que o pagamento foi recebido. Se a senhora se recusasse a abrigar Addie e Kitty, Addie não saberia para onde poderiam ir.
Tremendo com esse pensamento, Addie hesitou no portão.
Kitty, confiando sem questionar nas habilidades de Addie, deu um grande bocejo.
Endireitando os ombros, Addie empurrou o portão e marchou até a porta da frente. Ela bateu com firmeza usando a mão esquerda, ainda segurando a mão de Kitty com a direita.
Com um rangido, a porta se abriu, revelando uma mulher robusta, de cabelos brancos e vestida de preto.
Atrás dela, Addie vislumbrou uma sala de estar. Parecia limpa e vazia: um tapete gasto, um sofá duro, uma gravura da Virgem Maria. O cheiro predominante era de tomates cozinhando, alho e café forte — aromas de casa que assustaram Addie e deram um nó em sua garganta. Ela não sentia um cheiro assim desde que havia deixado o Brooklyn.
Por um instante, a vontade de virar e correr, puxando Kitty com ela, todo o caminho de volta para o Papai e a Mamãe, tomou conta dela.
Addie lambeu os lábios, engoliu em seco e forçou um sorriso. Ela tirou o medalhão de dentro de sua camisa de linho e do peito enfaixado.
A Sra. Orsini olhou de perto para ele, depois assentiu, dando um passo para o lado. No entanto, quando viu o caixão, ela falou. “Levem isso para a garçonnière”, disse ela aos homens. “Fica nos fundos. Deixei destrancada.” Ela tinha um sotaque italiano.
Ela virou seus olhos escuros para Addie, que tinha aberto a boca para protestar.
“Muito mais frio. Melhor. A fechadura é forte.”
Addie não gostou nem um pouco da ideia de Mateo ficar em um prédio separado. Nem um pouquinho. Mas discutir com a Sra. Orsini não levaria a nada de bom. Addie não ia explicar sobre o feitiço de preservação. Ela verificaria a fechadura mais tarde e, talvez, lhe daria um reforço mágico.
“Muito bem”, disse ela.
Kitty a puxou para a sala de estar, com os olhos arregalados enquanto observava o espaço.
“Vocês estão com fome?”, perguntou a senhora.
“Nossa, sim, senhora”, exclamou Kitty. “Com tanta fome que eu poderia comer até os chifres de um búfalo!”
Addie enrijeceu com a explosão de Kitty, mas percebeu um breve sorriso nos lábios da Sra. Orsini. Os olhos da senhora também brilharam. “Eu tenho o jantar para você e o seu pai, ragazzino.” Isso significava “garotinho” em italiano, uma prova da eficácia do disfarce de Kitty. “Venham comigo.”
A senhora as levou até a cozinha. Os cheiros da comida ficaram mais fortes, assim como a pontada de saudade de casa no coração de Addie. Pouco tempo depois, ela e Kitty se sentaram em cadeiras de palha à mesa, que estava coberta por uma toalha branca e limpa.
A Sra. Orsini colocou tigelas na frente delas e, em seguida, serviu um ensopado avermelhado nas tigelas com uma concha. Kitty começou a comer sem esperar.
“Obrigado, Signora”, disse Addie.
A Sra. Orsini estalou a língua e fez um sinal com a cabeça. Ela olhou para Addie com um olhar avaliador. “Por que o senhor veio para Nova Orleans, Signor Lagorio?”
Addie já esperava essa pergunta e tinha uma mentira preparada.
“Estou acompanhando o corpo do meu irmão mais velho, Padre Matteo Lagorio”, disse Addie.
“Padre?”, repetiu a Sra. Orsini, surpresa.
Addie abaixou os olhos. “Ele era um monge franciscano. Morreu de febre em um navio a caminho das missões”, disse ela com tristeza genuína. “Seu último pedido, feito sob juramento, foi ser enterrado no túmulo da família Lagorio em Nova Orleans.”
“Ah”, disse a Sra. Orsini, claramente não esperando por isso.
“Nós teremos que ficar por algum tempo”, acrescentou Addie. “As formalidades legais e da igreja precisam ser resolvidas, a senhora entende.”
“Ah, sim”, disse a Sra. Orsini, com parte de sua frieza inicial desaparecendo.
“Este é meu filho, Cleto”, eu disse, olhando para Kitty, que devorava o ensopado a colheradas. “Ele é tudo o que me resta.”
A Sra. Orsini estalou a língua novamente e pegou um pão, que rapidamente cortou em pedaços grandes, colocando um na frente de Kitty e outro na frente de Addie. Kitty deu a ela um largo sorriso de gratidão e murmurou um agradecimento com a boca cheia de comida.
“A senhora tem a nossa mais sincera gratidão, Signora”, disse Addie, e começou a comer.
Ela precisaria de todas as suas forças.
Não seria nada fácil trazer Mateo de volta à vida, mas, pelo menos agora, ela estava no lugar certo para fazer isso.

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