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Livro 1 de Shifting Greer

Autor
K. D. Cartiff
Leituras
145K
Capítulos
52
Autor
K. D. Cartiff
Leituras
145K
Capítulos
52
🕵️‍♂️Mistério & suspense😱Suspense👩🏽‍🎓Estudantes⚔️De inimigos a amantes🎭Drama🏍️Cafajestes💪🏻Protetor💪Mulheres fortes🕵️Crime & mistério😊Inocente🎓New Adult & Faculdade

Dois meses atrás, Greer tinha tudo — uma inteligência afiada, confiança de sobra e uma vida que se encaixava perfeitamente. Agora ela está escondida sob um novo nome, em uma nova cidade, com nada além de um par de óculos e uma lista de mentiras para mantê-la segura. O Programa de Proteção à Testemunha deveria apagar a noite em que ela perdeu os pais, mas o perigo não desaparece tão fácil.

Quando Kaleb começa a fazer as perguntas erradas, o mundo que Greer construiu começa a rachar. O passado que ela tenta desesperadamente enterrar está ressurgindo, e as sombras de que ela fugiu podem estar mais próximas do que nunca. Será que ela conseguirá se manter escondida quando seu coração se recusa a fazer o mesmo?

Prólogo

GREER

O som vem primeiro. Não é alto. Mas é errado. Parece fogos de artifício. O estouro do escapamento de um carro. Algo normal que faz parte de uma noite em que nada muda.
Então o som se repete, mais perto desta vez, e o chão treme sob os meus pés. Minhas mãos estão tremendo. Eu noto isso antes de entender o porquê.
Elas estão vazias, mas meus dedos se curvam como se devessem estar segurando algo. Como se algo estivesse faltando.
Meu coração está acelerado demais — um pássaro selvagem batendo contra uma gaiola de aço. O som dele é alto nos meus ouvidos, abafando a chance de ouvir qualquer outra coisa. Alguém diz o meu nome. Não estão gritando. Também não estão calmos. É apenas urgente. Como se fosse muito importante eu ouvir na mesma hora.
A luz do corredor pisca. Uma vez. Duas vezes.
Há um sapato de lado perto da porta. Não é onde os sapatos devem ficar. Os cadarços ainda estão amarrados. Eu acho isso estranho. Eu encaro o sapato por tempo demais e, então, o meu olhar vai para a parede.
Há uma marca vermelha na parede. Uma mancha irregular, como se alguém tivesse se esfregado nela. Eu a encaro, tentando decidir qual é a sua verdadeira cor. É mais escura do que tinta. Mais grossa.
Minha boca está com gosto de metal.
“Greer.” É a voz da minha mãe desta vez. Mais suave. Mais perto. É o jeito que ela diz o meu nome quando eu faço algo errado, mas que tem conserto. Quando ainda dá tempo.
Meu pai também diz o meu nome, mas ele não termina a frase. “Greer, vá—”
O resto desaparece. É engolido por outro som, alto e agudo o bastante para dividir o ar ao meio. O quarto parece inclinar.
A geladeira faz um zumbido. Eu noto isso em seguida. Aquele som mecânico e constante, como se nada estivesse acontecendo. A luz acima da pia da cozinha pisca de novo, e eu me pergunto se ela sempre foi assim ou se quebrou agora.
Meus joelhos travam. Meu corpo não cai, mas ele quer cair. Há uma sensação de repuxo atrás das minhas costelas, como se algo dentro de mim estivesse tentando sair primeiro.
Alguém segura o meu braço. Não lembro de ter decidido me mover, mas de repente eu estou andando. Meus pés pisam no chão com força, força até demais. Um sapato. Depois, sinto frio.
Olho para baixo e vejo pele nua onde um sapato deveria estar. Pés descalços. Isso parece quase importante. Guardo esse pensamento para depois.
A porta da frente está aberta. Ou quebrada. Não consigo distinguir qual dos dois. O ar entra com tudo, forte, limpo e errado. Eu deveria estar com frio, eu sei disso no fundo, mas não estou. Em vez disso, o ar bate no meu rosto e eu respiro fundo, como se estivesse debaixo d'água.
Lá fora, o mundo é claro demais. A luz da varanda da casa do outro lado da rua brilha num amarelo constante. Um cachorro late uma vez e, depois, fica quieto.
Minha mãe diz o meu nome novamente, mais perto agora, bem perto do meu ouvido. A voz dela falha na segunda sílaba.
Tento me virar. Alguém diz não. Talvez seja o meu pai. Talvez não. A voz soa distante, como se viajasse pela água para chegar até mim. Eu não vejo os rostos deles. Eu só vejo mãos. Uma mão tremendo. Uma mão se esticando. Uma mão escorregando e sumindo de vista.
Há um som que não deveria vir de uma pessoa. Um som úmido e quebrado que não combina com nenhuma palavra que eu conheça. As bordas de tudo começam a ficar embaçadas.
Meus pés não parecem mais pés. Meu corpo parece um casaco que eu esqueci que estava vestindo.
Eu me concentro na luz da varanda. Conto os insetos voando em círculos nela. Um. Dois. Três. Eles vão embora, mas acabam voltando.
Alguém me puxa de novo. Com mais força desta vez. Meu braço dói, mas a dor não atinge nenhum lugar real. Ela só existe, flutuando. “Continue andando”, uma voz diz.
Não é a voz dos meus pais. É a de um estranho. Calma de um jeito que não se encaixa na situação, que não deveria se encaixar.
Eu ando. Eu não sei para onde. Eu não lembro da rua. Ou dos degraus. Ou do vizinho abrindo a porta. Apenas o som da minha respiração — rápida demais, alta demais, como se não me pertencesse.
Um cobertor aparece em volta dos meus ombros. Meus dedos dormentes se erguem e puxam um fio solto. O tecido é pesado, áspero. Tem cheiro de um sabão de roupas que eu não conheço.
Luzes vermelhas e azuis piscam contra paredes beges. As minhas paredes são verdes. As luzes pintam tudo em pedaços. Parede vermelha. Rosto azul. Mãos azuis.
As pessoas fazem perguntas. O meu nome. A minha idade. O que eu vi?
Eu abro a boca, mas nada sai.
A luz da varanda do outro lado da rua pisca. Alguém se ajoelha na minha frente, com o rosto cuidadoso e embaçado nas bordas. A pessoa diz que estou segura. A palavra segura não significa nada. Ela escorrega de mim sem deixar marcas. Eu olho para as minhas mãos.
Há algo escuro debaixo das minhas unhas. Eu as esfrego umas nas outras, com cada vez mais força, mas aquilo não sai.
Eu fecho os olhos e consigo vê-los. Eles não se deram ao trabalho de cobrir os rostos. Para eles, eu não importava. Eu não deveria viver tempo suficiente para lembrar dos seus rostos.
Mas eu nunca vou esquecer. Os rostos deles estão marcados em mim para sempre.

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