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Fora do Tempo

Autor
Amber Kuhlman
Leituras
19,2K
Capítulos
46
Autor
Amber Kuhlman
Leituras
19,2K
Capítulos
46
🕵️‍♂️Mistério & suspense😱Suspense🕯️Romances lentos🎭Drama☯️Os opostos se atraem💪🏻Protetor💪🏻Macho alfa💪Mulheres fortes🖤Sombrio

Addy salva vidas para ganhar a vida — mas parece não conseguir salvar a própria. Depois que uma noite brutal estilhaça seu último pingo de força, ela foge, desesperada por escape. É quando ela colide com Jay — um estranho com perigo no olhar e pecados demais nas mãos. Ele é uma tempestade que ela deveria evitar, mas a atração entre eles é inegável. Ele está quebrado. Ela está sangrando. E, de alguma forma, seus corações ainda se reconhecem nos escombros. À medida que segredos sombrios surgem e fantasmas do passado colidem, Addy precisa decidir se continuará fugindo da verdade — ou se irá enfrentá-la de frente, mesmo que isso signifique amar o único homem capaz de destruí-la.

Capítulo 1

Addy apertava o volante com tanta força que os dedos doíam. A água batia contra o para-brisa em ondas violentas, e os limpadores mal conseguiam acompanhar enquanto iam e voltavam.
A cada poucos segundos, a estrada desaparecia atrás de um borrão de noite escura e chuva prateada, e ela precisava piscar com força para manter a visão limpa.
Ela deveria encostar. Sabia disso.
Suas mãos tremiam demais, seu peito estava apertado demais, seus pensamentos despedaçados demais. Mal conseguia respirar por causa da pressão que esmagava suas costelas.
Mas a ideia de parar, de ficar parada tempo suficiente para pensar no que tinha acabado de acontecer dentro daquela casa, fazia algo quente e desesperado subir pela garganta.
Então continuou dirigindo.
A música estava desligada. O aquecedor soprava ar morno pelas saídas de ventilação, mas não fazia nada para derreter o frio enterrado dentro dos seus ossos. Suas roupas encharcadas grudavam na pele. A água da chuva tinha escorrido do cabelo pela nuca, e agora tudo parecia úmido, pegajoso, errado.
Ela levantou a mão em uma placa de pare e esfregou o rosto com a base da mão, mas já não conseguia distinguir o que era chuva e o que eram lágrimas.
Quando chegou à estrada principal, Seattle tinha se tornado pouco mais que um borrão de luzes no retrovisor.
Sua respiração vinha em rajadas curtas. Inspirar pelo nariz, soltar pela boca. Devagar. Calma. Ela tentou se forçar a entrar no mesmo ritmo que usava com pacientes em crise, as mesmas respirações calmas e pausadas que ensinava durante ataques de pânico, dor e choque.
Não funcionou.
Sua mente ficava presa em pedaços da noite, fragmentos afiados que cortavam toda vez que vinham à tona.
Ryan parado na frente dela na chuva, uma mão apoiada na porta aberta do carro.
O que você estava fazendo no banheiro?
O jeito como a voz dele tinha mudado quando perguntou, mais suave do que antes, quase sóbrio. Essa era a pior versão dele às vezes. Não a barulhenta. Não a do bêbado desleixado e cambaleante. A quieta. A que agia como o homem razoável da situação. A que fazia ela se sentir louca por reagir às coisas que ele fazia.
Os dedos de Addy escorregaram no volante. Ela ajeitou a pegada, o maxilar trincado com tanta força que doía.
Você é minha noiva. Eu me preocupo com você.
As palavras fizeram seu peito apertar. Ela soltou um som amargo que quase era uma risada, mas não tinha nada de engraçado naquilo. Ele se preocupava com ela. Claro. Se preocupava o suficiente para colocar as mãos nela toda vez que a garrafa vencia.
Se preocupava o suficiente para deixar marcas roxas em lugares que ela conseguia esconder debaixo de suéteres, mangas compridas e sorrisos cuidadosos. Se preocupava o suficiente para comprar flores depois. Joias. Pedidos de desculpas caros.
Seu olhar caiu, por apenas um segundo, para o anel brilhando na mão esquerda.
Mesmo no escuro, o diamante captava as luzes que passavam e as refletia de volta para ela. Era lindo. Perfeito. Uma coisa dura e reluzente pousada em uma mão trêmula.
Ela odiava aquele anel naquela noite.
Uma nova onda de náusea passou por ela. Engoliu em seco e se endireitou no banco, tentando ignorar a dor no peito onde ele a tinha empurrado. A dor tinha mudado de uma pontada aguda para uma dor profunda e latejante, do tipo que ela sabia que ficaria feia pela manhã. Roxa e azulada. Sensível. Mais uma coisa para esconder.
Ela pensou em Lisa no sofá, copo vermelho na mão, olhos estreitos de desconfiança.
Está tudo bem com vocês dois?
Tudo bem, Addy tinha dito.
Tudo bem.
A mentira agora tinha um gosto azedo. Ficou parada na língua como veneno.
Ela pisou mais fundo no acelerador.
A estrada se estendia, escura, molhada e quase vazia. As casas desapareceram. Os postes de luz ficaram raros. Os faróis abriam um caminho estreito pela tempestade, iluminando árvores molhadas, valas e uma placa refletiva aqui e ali.
Ela não tinha plano. Não tinha destino. Só sabia que precisava de distância entre ela e Ryan antes de perder o pouco controle que ainda tinha.
Controle.
A palavra se cravou no peito.
O antebraço direito de Addy latejava debaixo da jaqueta encharcada. Ela sentia com uma clareza horrível, cada centímetro de pele em carne viva pulsando no ritmo do coração. Não precisava olhar para saber o que havia ali embaixo.
Já tinha visto sangue suficiente na vida para imaginar perfeitamente. Cortes irregulares, irritados e recentes, escondidos debaixo da manga que ela tinha puxado para baixo antes de sair do banheiro.
Seu estômago despencou.
Por um segundo terrível, ela estava de volta lá.
Trancada no banheiro da Lisa, com rímel escorrido pelo rosto e o grave da música da festa vibrando pelas paredes, o espelho tinha mostrado tudo que ela não queria ver. O anel. Os hematomas por cima de hematomas mais antigos.
As marcas rosadas de cicatrizes curadas. Uma garota que tinha se esforçado até não aguentar mais durante anos, que tinha acabado de ser aceita na faculdade de medicina, que tinha tudo pela frente e, mesmo assim, não conseguia descobrir como salvar a si mesma.
Então a lâmina de barbear solta no chão.
O brilho do aço nos dedos trêmulos.
A primeira ardência viva da dor.
Addy puxou o ar com tanta força que os pulmões queimaram. “Não.” Sua voz soou fraca dentro do carro. “Não, não, não.”
Ela piscou com força, empurrando a lembrança para longe, mas a memória grudou nela mesmo assim. O chão do banheiro. O sangue. O papel higiênico pressionado contra a pele. Seus próprios soluços abafados pela música lá fora. Ela já sabia, mesmo naquele momento, que era insano.
Que não mudava nada. Ryan ainda era Ryan. Ela ainda estava lá. Os cortes arderiam amanhã, e ela teria que se arrastar por mais um dia, fingindo que estava bem.
E mesmo assim, por aqueles poucos segundos, com a lâmina na mão, ela tinha sentido algo que quase nunca sentia mais.
Alívio.
A confissão fez a vergonha queimar dentro dela. Addy apertou uma mão no volante e usou a outra para enxugar as bochechas de novo. Se sentia ridícula, exposta e exausta de um jeito que ia além do sono.
Estava cansada nos ossos. Cansada na alma. Cansada de ter medo o tempo todo. Medo de Ryan quando bebia. Medo de deixá-lo. Medo do que as pessoas pensariam se soubessem. Medo de si mesma por ficar.
A chuva caiu ainda mais forte.
Um trovão rolou em algum lugar ao longe, baixo e prolongado. Os pneus do SUV chiavam sobre a água acumulada. Ela se inclinou para a frente, apertando os olhos pelo para-brisa, tentando enxergar as faixas na estrada.
Como as coisas tinham chegado a esse ponto?
Era o pensamento que ela nunca se permitia ter por muito tempo, porque vinha com respostas que não conseguia suportar.
A primeira vez que Ryan bateu nela, ela o tinha deixado.
Ela se lembrava daquela noite com uma clareza humilhante. O olho roxo. A dor latejante no crânio. As mãos trêmulas dele enquanto implorava para ela não ir embora. As lágrimas escorrendo pelo rosto dele enquanto jurava que nunca mais aconteceria.
Ela tinha acreditado nele naquela época. Talvez porque quisesse acreditar. Talvez porque a versão de Ryan que ela amava ainda parecesse mais real do que a versão que a machucava. Naquela época, a violência dele parecia algo fora do normal, um erro terrível dentro de algo que de resto era bonito.
Agora ela sabia a verdade.
Agora sabia que o amor podia apodrecer. Que pedidos de desculpa podiam virar rotina. Que um buquê de rosas podia se parecer muito com um aviso, se você olhasse por tempo suficiente.
A carta de aceitação passou pela mente dela em seguida, largada na mesa de centro com gotas de condensação por cima. Faculdade de Medicina da Universidade de Washington. As palavras pareciam irreais mesmo depois de abrir o envelope.
Ela deveria estar feliz naquela noite. Lisa queria isso para ela, mesmo que fizesse tudo do jeito mais barulhento e caótico possível. Uma festa. Bebidas. Música. Gente demais enfiada no apartamento. E Addy tinha tentado, por uns dez minutos, fingir que conseguia aproveitar.
Então Ryan a seguiu escada acima.
Seu pulso bateu mais forte.
Ainda conseguia sentir o cheiro do uísque no hálito dele. A pressão da mão dele ao redor do pulso dela. O tom afiado na voz dele quando ela disse não.
Não me diga o que fazer.
Addy se ajeitou no banco quando a dor irradiou pelo peito de novo, profunda e quente. Seus dedos roçaram a gola da jaqueta como se pudesse tocar o hematoma através das camadas. Ele a tinha empurrado com força suficiente para fazê-la tropeçar para trás.
Com força suficiente para deixá-la sem ar. Com força suficiente para que, quando ela olhou para cima, ele estivesse com o punho erguido, como se talvez dessa vez não fosse parar.
Seu estômago revirou.
Era sempre aquele momento que ficava com ela. Não apenas o que ele fazia, mas aquele segundo antes, quando ela via a decisão no rosto dele e sabia que estava à mercê dela.
Um carro passou na direção oposta, os faróis inundando o interior do SUV com luz branca antes de desaparecer na tempestade. Addy se encolheu mesmo assim. Seu coração não sossegava. Ela girou os ombros e tentou aliviar a rigidez no pescoço, mas a tensão só piorou.
O que ela estava fazendo?
Dirigindo sem rumo no meio da noite, com o cabelo molhado, o braço sangrando e o homem com quem ela deveria se casar provavelmente ligando para ela sem parar. O celular estava virado para baixo no banco do passageiro, silencioso apenas porque ela tinha desligado o som antes de sair.
Não precisava ver o nome dele piscando na tela. Não precisava das mensagens de voz. Dos pedidos de desculpa. Da exigência de que ela voltasse para conversarem.
Conversar.
Outra risada amarga escapou.
Eles nunca conversavam. Ryan falava. Ryan explicava. Ryan pedia desculpas. Ryan chorava. Ryan prometia. Addy ouvia. Addy perdoava. Addy ficava. E de alguma forma, no fim, Ryan sempre virava a vítima, e ela virava a noiva irracional que exigia demais.
Seus olhos embaçaram de novo. Dessa vez não conseguiu dizer se eram lágrimas ou a chuva incessante. Talvez os dois.
Deveria ligar para alguém.
Lisa, talvez. Mas a ideia de Lisa ouvir o tremor na voz dela e imediatamente perceber que algo estava errado fez o peito apertar. Sua melhor amiga não era burra. Lisa desconfiava de muito mais do que Addy jamais tinha admitido. Uma conversa de verdade, um momento de honestidade, e toda a estrutura podre da vida de Addy desmoronaria.
O rosto do pai surgiu na mente sem aviso, seguido pela voz de Lisa mais cedo.
Eu não quero que você acabe com alguém como o seu pai, Addy.
Ela engoliu em seco.
Tarde demais para isso.
A estrada fez uma curva fechada, e ela acompanhou, reduzindo a velocidade só um pouco. Pinheiros se amontoavam dos dois lados, escuros e balançando na tempestade. Quanto mais longe da cidade, mais isolado tudo parecia.
Deveria ter sentido medo. Em vez disso, o vazio era quase um conforto. Nada de gente de festa. Nada de olhares curiosos. Nada de Ryan parado na frente dela com aquela ternura irritante e ensaiada.
Só a chuva. A estrada. A dor dentro dela.
Addy girou os ombros de novo e flexionou os dedos. O movimento puxou os cortes debaixo da manga, e ela soltou um silvo de dor. Deveria ter enfaixado melhor. Deveria ter limpado melhor. Sabia disso. Ela, entre todas as pessoas, sabia disso. Mas só queria sair. Sair do banheiro. Sair do apartamento. Sair do alcance dele.
Os faróis iluminaram algo mais adiante — uma placa refletiva, depois um trecho de acostamento rachado, depois um buraco grande o suficiente para engolir um pneu. Ela desviou, e os pneus derraparam levemente no asfalto molhado. Sua respiração travou. A traseira do SUV derrapou uma vez antes de se corrigir, e ela congelou, cada músculo do corpo rígido até o carro se estabilizar.
“Jesus Cristo.” Sua voz soou mais alta agora, quase desesperada.
O coração batia forte contra as costelas. Ela tentou afrouxar a pegada, mas foi inútil. O corpo inteiro parecia elétrico, agitado e frágil. Não podia continuar assim. Não podia continuar dirigindo às cegas pela tempestade como uma louca.
Procurou algum lugar para encostar, mas não havia nada. Nenhum posto de gasolina, nenhuma lanchonete, nenhum aglomerado de luzes ao longe. Só árvores, escuridão e chuva.
Um soluço subiu sem aviso e ficou preso na garganta. Ela o engoliu de volta.
Precisava se recompor.
Addy tirou uma mão do volante e aumentou o aquecimento. Depois, por impulso, se esticou até o banco do passageiro e pegou o celular. A tela iluminou seu rosto com um azul frio. Seis chamadas perdidas. Quatro mensagens.
Ryan.
É claro.
O polegar pairou sobre as notificações, a náusea se torcendo no fundo do estômago. Mas antes que pudesse decidir se jogava o celular pela janela ou desligava de vez, o SUV bateu em algo com força.
Houve um estouro violento. O volante deu um solavanco nas mãos dela.
“Mas o que—”
Um barulho horrível de algo se debatendo veio da frente do veículo, seguido de uma tração forte para a direita. Addy gritou e lutou com o volante, tentando manter o controle enquanto o SUV se lançava em direção ao acostamento.
O celular escorregou dos dedos e caiu em algum lugar perto dos pés. Os pneus cuspiam cascalho. O veículo inteiro tremeu e se arrastou antes de finalmente parar com um solavanco no acostamento.
Por um momento, tudo que ela conseguiu fazer foi ficar ali sentada.
A chuva martelava o teto. Sua respiração entrava e saía rasgando os pulmões. As mãos continuavam travadas no volante, mesmo com o motor ligado e o carro parado.
Então, devagar, de forma terrível, a realidade se assentou.
“Por favor, não faz isso comigo.” Sua voz falhou.
Addy se inclinou para a frente e encostou a testa no volante. Lá fora, a tempestade continuava furiosa, e a estrada vazia se estendia escura nas duas direções. Ela estava sozinha.
Já passava da meia-noite. Não fazia ideia de onde estava. O celular tinha caído em algum lugar fora de alcance e, a julgar pelo ângulo horrível do SUV e o barulho que veio depois do estouro, ela já sabia exatamente o que tinha acontecido.
Pneu estourado.
Sua risada dessa vez foi mais parecida com um soluço. Ela se endireitou e olhou para a estrada varrida pela chuva à frente, cada nervo do corpo vibrando enquanto o pavor se instalava no peito.
Então, engolindo em seco, ela alcançou a maçaneta da porta.

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