
Os Viajantes de Tyr: Hellhound
Autor
Adelina Jaden
Leituras
1.0M
Capítulos
38
Rage, conhecido como Hellhound em seu motoclube, busca consolo na dor, não importando se é a dos outros ou a sua própria. Até conhecer Iris, uma mecânica assombrada pelo seu passado nas ruas. Duas almas profundamente marcadas, que ainda têm uma coisa: o amor. Eles estão prontos para passar pelo inferno (de novo) para curarem um ao outro.
Livro 2 da série "Os Viajantes de Tyr". Cada livro é uma história independente sobre pessoas diferentes do Clube.
Tranquilidade Inesperada
Rage
Mais um dia abre caminho à força para existir, e eu já estou acordado para recebê-lo com um rosnado. A primeira coisa que faço é acender um cigarro. Saio da cama cambaleando, com a cabeça latejando num ritmo de pura agitação.
Nem sempre sei quando estou acordado, quando estou sonhando ou quando estou apenas bêbado. A única constante é a coceira, a sensação de unhas num quadro-negro sob a minha pele, o maldito tempo todo.
Vou me arrastando até o banheiro e vomito no vaso sanitário sujo. Quando olho para cima, meu reflexo me encara do espelho rachado, uma bagunça distorcida e sangrenta que eu tinha feito com a minha própria cabeça um tempo atrás. Não reconheço o homem me olhando de volta. Quão fodido é isso? Eu poderia cruzar comigo mesmo na rua e nem saberia. Os médicos têm um nome para isso, mas eu não ligo. Sou um morto-vivo andante.
“Rage”, uma voz ecoa do lado de fora do meu quarto. “Tor quer você no escritório dele.”
Eu solto um grunhido e quero cair fora. Tor é o meu Rei, o líder da nossa gangue. Eu gosto dele. Ele é inteligente e nunca tem medo de me usar quando precisa que alguém suma para sempre. Eu sou bom nisso.
Visto minha calça jeans preta sobre o corpo nu e jogo o colete de couro sobre os ombros. Abro a porta, quase a arrancando das dobradiças. Quem quer que estivesse do outro lado se apressou para fugir.
***
O ar no escritório de Tor está pesado com fumaça de charuto e mentiras. Não me sento. Caminho de um lado para o outro no pedaço gasto do tapete em frente à sua mesa, o peso da minha faca uma promessa fria na minha mão. Eu a giro, de ponta a ponta, com o aço capturando a luz fraca. Pego. Giro. Pego.
“...merda simples”, Tor está dizendo para Runner, que está encostado na parede, calmo como sempre. “Eles vêm para falar de negócios. Durante a festa. Muito barulho, muitos corpos. Ninguém vai notar. Só não gosto daqueles lixos.”
Pego. Giro. Pego. A lâmina é uma extensão dos meus dedos inquietos. Minha outra mão esfrega compulsivamente o meu couro cabeludo, passando pelas laterais curtas do meu moicano.
“Vocês dois só fiquem de olho”, Tor continua, com o olhar se voltando rapidamente para mim. “Garantam que tudo continue simples. Sem exibicionismo. Sem bagunça. Se eles fizerem algum movimento estúpido, acabem com eles.”
Minha faca para na minha palma. Sangue. Eu posso matar esta noite. Consigo sentir aquele gosto de metal na minha língua.
“Mas só se eu disser. Até lá, sem bagunça.”
Sem bagunça. As palavras são uma jaula. Ele prometeu um trabalho. Uma morte. Meu cérebro imaginou a perseguição, o estalo dos ossos, o derramamento quente de sangue. Mas ele está falando sobre observar. Ser babá.
Um som baixo ecoa do meu peito. Consigo sentir o Cão do Inferno se contorcendo, a corrente cavando o meu pescoço.
“Rage.” A voz de Runner é um aviso silencioso.
Olho para Tor, com meu maxilar trabalhando. Preciso me mexer. Preciso quebrar alguma coisa.
“Tudo certo com isso, bror?”, Tor pergunta, com os olhos semicerrados.
Dou um único e brusco aceno de cabeça que parece que vai quebrar o meu pescoço. É a única resposta que posso me dar ao luxo de dar. Runner se afasta da parede e dá um tapa no meu ombro. O contato é como uma faísca na gasolina. Eu recuo bruscamente, um rosnado sendo arrancado da minha garganta, e ele se afasta na hora, com as mãos para cima.
“Calma, irmão”, ele diz. “Vamos nessa.”
Saímos do escritório e entramos no bar. O silêncio é uma provocação. É uma pressão física atrás dos meus olhos, nos meus punhos cerrados. Minha pele está apertada demais e não consigo respirar fundo.
Sem bagunça. Apenas observe.
Bato a palma da mão contra a parede, o impacto subindo pelo meu braço. A foto emoldurada de algum irmão há muito morto cai no chão. O vidro se estilhaça. O som é bom, mas não é o bastante. Eu preciso sair. Preciso pilotar. Preciso da minha moto e da estrada aberta onde posso gritar e ninguém vai ouvir. Sou uma mola encolhida, uma arma carregada esquecida sob o sol, pronto para disparar em qualquer direção.
Porra, rosno alto, estou perdendo o controle. Não consigo segurar a fúria dentro de mim, preciso—
E então a porta do bar se abre.
Uma figura está parada na porta. Não chega a ser uma mulher, está mais para uma garota. Ela é pequena, com a cabeça sob um capuz e as mãos enfiadas nos bolsos do jeans largo.
Assim que ela entra, todos os caras no bar se viram para olhá-la. É meio-dia, então apenas um punhado de nós está aqui.
Stig está enfiado na sala dos computadores, Vince está curando as conquistas da noite passada com uma xícara de café no bar. Um novato — o que o clube chama de thrall — está atrás do balcão, e eu sei que Tor está no escritório do Rei. A garota avança para dentro do salão e percebo que ela é jovem, magra demais, quase frágil.
Não consigo ver muito do rosto dela debaixo do capuz, mas não consigo desviar o olhar.
“Precisa de alguma coisa, doçura?” Runner se levanta.
“Eu… hã…” A voz dela mal passa de um sussurro.
Há algo na voz dela que me deixa com os nervos à flor da pele. Ela está com medo. Não só com medo, ela está apavorada, e não é porque está no covil de um motoclube fora da lei.
O medo dela é enraizado, uma companhia constante. Eu o reconheço porque já o senti. Droga, eu o conheço bem. Minha mão vai instintivamente para a faca no meu coldre. No momento em que toco no cabo, sinto uma calma tomar conta de mim.
“Estou aqui para o trabalho”, ela diz, com a voz quase num sussurro.
“Ah, que bom.” Runner acena para o thrall. “Chame o Tor.”
O thrall sai apressado, desaparecendo no corredor que leva ao escritório de Tor. Envolvo meus dedos no cabo da faca, extraindo conforto de seu peso familiar. Não sei por que a chegada dessa garota magra me deixa tenso, nem por que sinto a necessidade de ser reconfortado pela minha arma.
Consigo sentir minha agitação aumentando, um fogo no estômago que não se apaga. Não consigo ficar quieto, então me levanto, com a cadeira arranhando ruidosamente o chão. Vince se vira para mim, o rosto cheio de cicatrizes retorcido numa careta.
Ambos os irmãos olham para mim como se eu estivesse prestes a explodir. Metade do tempo, tenho medo de que exploda mesmo. A outra metade, eu gostaria que isso acontecesse, só para acabar com tudo.
“Tudo bem, irmão?” Vince se levanta, com a preocupação estampada no rosto.
“Rage?” Runner chega mais perto.
Eu mal os escuto enquanto passo os dedos pelo cabelo. Merda! Está acontecendo de novo! Consigo sentir o ímpeto, a pulsação nos meus ouvidos e a pressão se acumulando no meu peito. Eu gemo, o som profundo e gutural.
“Bror”, Vince exige.
Seguro a faca com mais força, meu maxilar trancado com tanta força que dói. Minha visão é tingida de vermelho e meus pensamentos estão uma bagunça. Eu sabia que hoje seria um dia ruim. Preciso sair do bar, ficar longe dos meus irmãos.
Eles estão acostumados com os meus surtos, mas a garota…
O pensamento nela me faz olhar na sua direção. Ela ainda está segurando o capuz, mas quando me viro, ela o deixa cair. Eu congelo. Tudo congela. Apenas por um momento, mas acontece.
Eu a encaro por apenas um segundo, mas é o bastante. Ela tem cabelos escuros, presos num coque bagunçado. O moletom preto que veste é grande demais, com o zíper aberto para revelar uma camiseta preta velha. A blusa está rasgada em alguns lugares, deixando à mostra o umbigo.
Os jeans também são grandes demais e caem soltos nos quadris finos. Todas as roupas dela parecem pertencer a outra pessoa. Mas não são as roupas que me chamam a atenção. São os olhos dela. Seus malditos olhos! São de um cinza marcante, dominando seu rosto pequeno e fino.
E ela está olhando para mim. Olhando para mim com aqueles malditos olhos.
“Você está aqui para o trabalho?” A voz de Tor quebra o feitiço.
O olhar dela desvia de mim para Tor, e isso soa como um golpe físico. Eu quero agarrá-la, forçá-la a olhar para mim de novo para silenciar as vozes na minha cabeça. Mas não posso. Ela já está aterrorizada e não precisa de um louco em seu encalço.
Acompanho o olhar dela até Tor e vejo que ele também foi pego de surpresa pelos olhos dela, e um sorriso brinca nos seus lábios.
Eles me chamam de Rage, e isso é tudo o que eu sou. Um metro e noventa e três, e quase cem quilos de puro músculo. O meu nome verdadeiro não importa para ninguém, muito menos para mim. Mas ver Tor de olho na garota de olhos cinzas me faz questionar o que a raiva realmente é.
Seguro a minha faca com mais força e pego uma garrafa com a mão livre. Respiro fundo, e o meu peito ofega. As vozes na minha cabeça se acalmam. Mas Tor é o meu irmão e sempre me tratou bem. Eu não posso…
“Venha, sente-se!”, Tor convida a garota, mas ela hesita.
Então, ela vira o olhar de volta para mim. Seus olhos me cravam no lugar, e, por alguns breves segundos, as vozes na minha cabeça ficam em silêncio. Consigo sentir seu olhar queimando em mim, espiando minha alma. Não gosto do que ela possa encontrar lá, então desvio o olhar, segurando a garrafa com mais força.
Sinto-a se afastar e viro o líquido âmbar enquanto me sento de novo.
“Qual é o seu nome, doçura?”, escuto Tor perguntar, e tomo mais um gole de uísque.
Amo o meu Rei, mas, naquele momento, eu o odeio por ser capaz de falar com ela. E porque sei que se Tor botar os olhos em uma garota, ela vai parar na cama dele.
“Eu estou… aqui para o trabalho”, ela repete.
“Certo.” Tor assente.
Não há muitas garotas que vêm trabalhar no bar e dão o nome verdadeiro. Apelidos pegam e ponto. É assim que as coisas funcionam, mas eu quero saber o nome dela.
“Você tem outras roupas, certo?”, Tor ri.
“Por quê?” A voz dela é suave e tímida.
“Ei, doçura. Não somos o Hooters, não temos uniforme. Saias curtas ou jeans justos serviriam perfeitamente, embora eu não me importasse que você exibisse essa barriga.”
Um zumbido ensurdecedor ecoa nos meus ouvidos enquanto escuto-o falar manso com ela. Estou bem ciente da reputação dele com as mulheres e já vi o fluxo constante delas entrando e saindo do seu quarto. Eu não dou a mínima para as mulheres que Tor leva para o quarto para o seu prazer.
Mas não quero que ela seja quem vai subir as escadas para o apartamento do Rei. Ela não. Não consigo explicar por que me sinto assim.
“Eu… eu não entendo”, ela gagueja, mordendo o lábio inferior. “A mulher que me deu este endereço…”
Ela puxa um pedaço de papel do bolso do jeans. Seus movimentos são fluidos, mas nervosos, como se temesse que qualquer ação repentina pudesse irritar Tor.
“Que mulher?”, Tor pergunta.
“Uma moça num Prius. Ava.”
A atenção de todos se volta para a garota, e o meu foco se intensifica quando escuto o nome de Ava. Ela é a mulher de Bjorn, a sua Valquíria e a sua futura esposa.
Não que eu dê a mínima para nada disso. Já vi Ava derrubar um homem com um único golpe de faca, e isso é suficiente para ganhar o meu respeito. Ela é o cérebro por trás do serviço de acompanhantes do clube, e todos gostam dela ou a temem.
Ela é habilidosa com uma faca, não tem medo de matar e não recua diante da visão de sangue, nem mesmo do seu próprio. Pelos meus padrões, ela é uma verdadeira Valquíria.
“Ava mandou você? Para trabalhar no bar?”, as sobrancelhas de Tor se franzem.
“Bar?” A garota olha em volta como se tivesse acabado de perceber onde está. “Não, isso é um engano. Eu não…”
Ela se levanta abruptamente, o medo estampado em seu rosto. Ver a sua vulnerabilidade enquanto aperta o moletom ao redor do corpo me toca fundo. Deixo a garrafa de lado e, apesar do zumbido reconfortante do uísque, fico em alerta máximo.
Qualquer um que tentar tocá-la terá que lidar comigo. Levanto e dou um passo para mais perto dela, com o meu olhar varrendo todos no recinto.
“Ei, ei”, Tor diz, sem sequer olhar para mim. “Me conte. Não quero enfrentar a porra da fúria de Ava.”
“Ela disse que tinha um emprego. Numa oficina.”
“Em… numa o quê?”, o rosto de Tor se contorce de confusão.
“Numa oficina.”
Até Stig emerge da sua caverna de computadores para encarar a garota. Estudo o seu corpo pequeno, tentando entender o que ela está dizendo. O que uma garota como ela faria numa oficina?
Ela parece tão frágil, não tem nada a ver com uma mecânica. Tor é o primeiro a se recuperar do choque, jogando a cabeça para trás em uma gargalhada. A garota fica de pé perto da mesa, olhando ao redor nervosa enquanto Tor se diverte.
A raiva cresce dentro de mim, e bato a mão na mesa, silenciando o riso de Tor. Ele se vira para mim, e eu inclino a cabeça para o lado, estalando o pescoço.
“Escute, garota”, Tor se levanta. “Nós somos um motoclube. Sabe alguma coisa sobre Harleys?”
Ela apenas assente.
“Bem, a oficina não é o meu território. Siga-me”, Tor vai em direção à porta.
A garota vai atrás dele. Ao passar por mim, me dá um último olhar. Seus passos não falham, mas a sua respiração engata — um som minúsculo e contido que sinto no meu próprio peito. O seu olhar não vê apenas o monstro; vê o homem segurando o monstro, e isso me desfaz mais do que qualquer grito jamais poderia. Fico tentado a segui-la para garantir que ela esteja bem e segura, mas sei que preciso resistir. Ela nunca poderá estar segura, não perto de mim, não com um psicopata quebrado como eu.
Como que para confirmar meus pensamentos, no momento em que a porta se fecha atrás dela, as vozes voltam mais altas do que antes e a dor se esgueira de volta. Eu saco a minha faca e examino-a. A lâmina desliza sobre a minha pele, pressionando o suficiente para tirar sangue.
Ver o líquido quente e vermelho escorrendo pelos meus dedos me traz alívio. Eu sorrio e tomo outra bebida. Sabia que hoje ia ser um dia ruim.





































