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Difícil de Esquecer

Autor
Daphne Anders
Leituras
18,0K
Capítulos
34
Autor
Daphne Anders
Leituras
18,0K
Capítulos
34
💕Romance📸Celebridades😌Segundas chances🎭Drama💘Primeiro amor🏙️Contemporâneo🎸Rockstars🏡Cidades pequenas & zona rural

Ella foge para Florence, no Alabama, desesperada para desaparecer após escapar de um casamento doloroso. Mas se esconder se torna complicado quando seu passado ressurge no rádio — e depois bem na sua frente, vestindo um chapéu de cowboy e um sorriso enviesado. Wesley, agora um astro da música country, nunca parou de escrever canções sobre a garota que partiu seu coração. Faíscas antigas estalam, mas o amor parece perigoso quando o medo ainda espreita nas sombras. À medida que segredos vêm à tona e memórias despertam, Ella começa a se perguntar se a vida da qual ela tem fugido pode guardar o amor que ela ainda está destinada a encontrar.

Capítulo 1

ELLA

Fazia uma eternidade que eu não voltava a Florence. Bom, tirando aquelas visitas rápidas pra casa no Natal ou na Páscoa, ou quando minha mãe me fazia sentir culpada pra eu ir no Dia de Ação de Graças. Eu tentei tanto ficar longe, e até funcionou — até agora.
E só pra deixar claro, não estou falando de Florença, na Itália. Estou falando de Florence, Alabama.
Florence é uma dessas cidadezinhas que as pessoas chamam de “pitoresca”. Daquelas com chá gelado, missa no domingo e vizinhos que acenam pra você da varanda. Tem aquele charme sulista que todo mundo vive elogiando.
Mas não sobrou mais nada pra mim em Florence. Não depois que eu estraguei tudo de bom que eu tinha lá.
Agora, estou na divisa da Carolina do Sul, dando adeus à bagunça que eu fiz na Carolina do Norte. Dessa vez, de verdade. Sem olhar pra trás.
Eu não vou voltar pra lá. Não depois de tudo que eu passei. Camp Lejeune é só uma lembrança no meu retrovisor agora — assim como Florence costumava ser.
Engraçado como a vida da qual eu tentei tanto fugir acabou me encontrando de volta.
No segundo em que cruzei a fronteira da Geórgia, o ar mudou. Tinha cheiro de casa — cheiro de interior, mas também de esterco e milharal e esconderijo de caçador. Eu quase conseguia sentir o gosto.
Mantive os olhos grudados na estrada, contando os quilômetros até ver a placa do Alabama.
Já fazia cinco horas que eu estava dirigindo e ainda faltavam pelo menos mais seis. Saí o mais tarde que pude — meia-noite.
Fiz de propósito. Menos chance de alguém perceber que eu estava fugindo. Até agora, tinha funcionado.
Já eram quase seis da manhã, e o sol começava a tomar conta do céu. Eu precisava achar um lugar pra descansar.
Não tinha como aguentar mais cinco horas sem dormir. E a essa altura, ninguém conseguiria me rastrear. Deixei meu celular pra trás, junto com tudo que pudesse ser rastreado.
Eu não podia arriscar ser encontrada. Não depois de tudo que eu sobrevivi. Eu não ia voltar pra aquela casa. Nunca mais.
Foi aí que avistei a placa do Red Roof Inn, brilhando na saída da rodovia.
Minha caminhonete velha e caindo aos pedaços chiou quando entrei no estacionamento. Respirei fundo, tremendo. Eu tinha comprado aquela caminhonete alguns dias antes por pouco mais de mil dólares.
Estacionei na rua, em frente à base, e pela primeira vez em muito tempo, me senti livre. Como se finalmente estivesse fazendo a coisa certa.
Era disso que eu precisava. O que eu deveria ter feito um ano atrás.
Naquela noite, dormi melhor do que em um ano inteiro. Sem me preocupar em apanhar, ou ser rastreada, ou ser enganada.
Eu não me importava mais com nada disso. Seis horas de sono pareceram um milagre.
O último ano foi um inferno. Perdi quase sete quilos — com certeza não de propósito. Estava pesando uns cinquenta e dois quilos, no máximo.
Fazia uma eternidade que não tingia meu cabelo, então o loiro vibrante estava desbotando para um loiro sujo e sem vida. Escondia os hematomas e cicatrizes debaixo da roupa. Tinha pedido licença do trabalho no mês passado — ele me obrigou.
Ele disse que eu não devia trabalhar tanto enquanto ele estava em casa, de volta da missão. Não que eu conseguiria manter o emprego de qualquer jeito, não com as pessoas percebendo os hematomas.
Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos por um segundo, deixando o ar quente do verão passar pelo meu rosto. Era tão bom. Como se eu finalmente pudesse respirar.
Conforme me aproximava do Alabama, o rádio começou a falhar. Girei o botão velho, procurando qualquer coisa que não fosse comercial.
Finalmente, achei uma estação bem na hora em que uma música nova começava. Esperei, ouvindo a batida, a voz.
Era ele.
Reconheci na hora. A voz rouca, grave, o jeito que ele arrastava certas palavras.
Não consegui mudar de estação. Precisava ouvir a música inteira.
Precisava ouvir o locutor dizer o nome dele no final. Então escutei, mesmo que doesse. Mesmo que parecesse tortura.
Mesmo que me afogasse em lembranças que eu tinha tentado tanto deixar pra trás. A música foi acabando, e a voz animada do locutor saiu pelos alto-falantes: “E essa, pessoal, foi Wesley Tate com 'Hard to Forget'!”
Era exatamente isso que ele tinha se tornado pra mim. Difícil de esquecer.
Engraçado que eu também costumava ser a pessoa difícil de esquecer pra ele. Agora, aposto que ele nem lembrava do meu nome.
Fazia anos desde a última vez que eu o vi. Anos desde que tínhamos sequer nos falado. Duvidava que ele ainda pensasse em mim.
Eu precisava parar de ficar remoendo. Ia ter tempo de sobra pra lembranças quando eu chegasse em Florence.
Não fazia sentido ficar desenterrando o passado antes mesmo de cruzar a divisa do estado.
E lá estava. A placa da divisa do Alabama, aparecendo no horizonte.
Parecia que as nuvens se abriram só pra mim, a luz do sol se derramando sobre a placa. Meu próprio pedacinho de paraíso.
Só mais quarenta e cinco minutos e eu estaria em casa. Já conseguia imaginar os rostos da mamãe e do papai — surpresos, mas felizes. Talvez um pouco confusos também.
Entrei no centro da cidade, passando pelas lojinhas coloridas que eu quase tinha esquecido. Tudo parecia tão bonito, como um cartão-postal que eu tinha guardado e finalmente reencontrado.
Estava quase exatamente como eu tinha deixado. Algumas lojas novas, um pouco mais de gente, mas ainda era a mesma cidade que eu lembrava. O centro foi ficando pra trás no retrovisor, e lá na frente, a Old Railroad Bridge se estendia sobre a água — o orgulho de Florence.
Tinham transformado a ponte numa passarela, mas continuava linda. Vi de relance o Pickwick Lake e o Rio Tennessee, a água brilhando sob o sol da tarde.
O barulho do cascalho estalando debaixo dos pneus fez meu coração disparar. A estrada tinha uns três quilômetros, e a casa dos meus pais ficava bem no final.
A casa deles era aconchegante, no estilo de fazenda, encaixada direitinho na paisagem do interior do Alabama. Conseguia ver o contorno da casa ao longe e respirei fundo, tentando acalmar o frio na barriga.
Um minuto depois, minha velha caminhonete parou na beira da entrada. Estacionei, e lá estava o papai, de pé na varanda, gritando.
“É você, Ellie?” ele gritou.
Não respondi. Só corri até ele e abracei sua cintura. Ele acariciou meu cabelo, delicado como sempre.
“O que aconteceu, El?” ele perguntou, com a voz suave.
“Nada. Não mais, papai.” As lágrimas ardiam nos meus olhos, mas tentei piscá-las pra longe.
Ele olhou pro meu pulso e notou o hematoma amarelado. “Aconteceu alguma coisa com o Jason?”
“Eu não quero falar sobre isso.” Limpei as bochechas, mas as lágrimas não paravam.
Mamãe apareceu na porta, os olhos arregalados de preocupação.
“Ella, querida. Você pode ficar aqui o tempo que precisar, você sabe disso.”
“Ele bateu em você, não foi? Aquele filho da puta desgraçado!” Papai cuspiu no chão, o rosto vermelho, andando de um lado pro outro na sala.
“Eu nunca gostei dele. Nunca!” ele gritou.
Engoli um soluço. “Por favor. Vai só me deixar triste de novo. Estou segura agora. Estou aqui com vocês,” eu disse, desesperada pra afastar as lembranças.
Mamãe pegou minha bolsa. “Vamos levar suas coisas pro seu quarto antigo. Você tá com fome? Aposto que tá morrendo de fome depois dessa viagem toda.” Ela começou a vasculhar a geladeira, tirando sobras e montando uma refeição.
“Obrigada,” sussurrei.
A voz do papai veio do outro lado da sala. “Por que você não contou pra gente?”
O silêncio tomou conta do espaço entre nós. Então ele falou de novo, mais baixo dessa vez. “Desculpa, Ellie… Eu não devia ter perguntado.”
As palavras dele me acertaram em cheio. Mesmo sem querer, me fizeram sentir pequena e culpada.
Eu devia ter contado pra eles. Mas não podia. O Jason vigiava tudo que eu fazia — cada movimento, cada ligação.
Antes disso, não parecia tão ruim. Ou talvez eu só dissesse isso a mim mesma. Ele ficava fora muito tempo, destacado por um mês de cada vez, sempre em alguma missão da qual não podia falar.
Mas o temperamento dele foi piorando. Mais curto. Mais cruel. Eu sabia que ele me traía, mas nunca achei provas no celular dele.
Toda vez que eu perguntava onde ele esteve até seis da manhã, dizia que estava com os amigos fuzileiros. Mas eu sabia a verdade. Sempre soube.
No começo, era só um tapa com a mão aberta — um tapa no rosto. Um hematoma que eu podia cobrir com maquiagem, nada que alguém fosse notar. Mas não parou por aí.
Um tapa virou vários. Depois virou um empurrão escada abaixo ou contra a parede. Toda vez que ele via o sangue ou as marcas, pedia desculpa. Jurava que nunca mais ia acontecer, prometia que ia buscar ajuda. Alguns meses atrás, finalmente decidi que já era o bastante.
Fiz um plano. Ia deixá-lo quando ele saísse pra treinamento.
Aquelas três semanas pareceram uma eternidade. Cada dia era pesado, cada noite pior. Mas eu cometi um erro naquele dia.
Não é estranho? Eu ainda acho que fui eu quem errou, quando sempre foi ele. É isso que os abusadores fazem, não é? Distorcem tudo até você acreditar que o problema é você.
Naquela manhã, quando eu disse não, ele perdeu o controle. Me prensou contra a parede, exigindo que eu cedesse.
Lembro daquela noite com tanta clareza — clareza demais. Ele amarrou minhas mãos atrás das costas, me pressionou contra a parede e me penetrou à força.
Ele já tinha tirado tudo de mim. Agora tirou isso também. Tentei lutar — chutei, me debati, tentei me soltar — mas isso só o deixava mais excitado.
Depois, eu só me encolhi no chão e chorei. Não conseguia me deixar pensar no que tinha acontecido. Queria fugir, mas sabia que ele me encontraria. Queria chamar a polícia, mas morávamos na base, e a polícia militar sempre ficava do lado dele.
Por isso eu precisava ser cuidadosa. Precisava sair antes que ele pudesse me arrastar de volta. Fui tirada dos meus pensamentos pela minha mãe acenando a mão na frente do meu rosto, tentando chamar minha atenção.
Ela colocou um prato de comida na mesa de centro, na minha frente.
“Obrigada pela comida, mamãe.”
“De nada, querida.” Ela tentou esconder a preocupação na voz.
“Eu tô bem,” eu menti.
Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos. “Você deve estar cansada. Por que não descansa depois de jantar, meu bem? Seu pai vai levar suas malas pro seu quarto antigo.”
Ela bateu as mãos nos joelhos e saiu da sala.
Mas eu conseguia ouvir ela chorando baixinho no outro cômodo. Estava tentando esconder, tentando facilitar as coisas pra mim.
Eu sabia tudo sobre esconder coisas. Porque não importa o quanto a gente tente, o que a gente esconde sempre encontra um jeito de voltar.

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