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Mudanças Sutis

Autor
M. Wolf
Leituras
184K
Capítulos
22
Autor
M. Wolf
Leituras
184K
Capítulos
22
💕Romance👩🏻‍🍼Mães🎭Drama🏙️Contemporâneo

O mundo de Charlotte vira de cabeça para baixo da noite para o dia — seu relacionamento desmorona, seu ex falece e, de repente, ela se vê enfrentando a maternidade sozinha. Entre noites mal dormidas, conselhos não solicitados e um turbilhão de emoções, ela tem certeza de que precisa lidar com tudo por conta própria. Mas a vida tem um jeito engraçado de surpreendê-la. Uma nova e gentil conexão começa a florescer, lembrando a Charlotte que o amor pode chegar quando tudo parece perdido. Através de momentos familiares caóticos, amizades leais e pequenos triunfos, ela descobre que curar não significa esquecer — significa abrir seu coração novamente, um passo pequeno e lindo de cada vez.

Capítulo 1

CHARLOTTE

Meus saltos estalam no chão do corredor enquanto sigo para a cafeteria. Lester precisa do seu café da tarde e, sinceramente, uma caminhada vai ser boa para eu esfriar a cabeça.
Pego meu celular no bolso e vejo se há mensagens. Ainda nada do Harrison. Meu estômago dá uma reviravolta estranha, mas tento ignorar. Ele não é conhecido por responder rápido.
Nós terminamos há quatro semanas, depois de dois anos juntos. Foi mútuo, ou pelo menos foi o que dissemos a nós mesmos. Éramos amigos antes de começarmos a namorar e estamos tentando continuar assim agora.
O problema é que o Harrison está no exército. Ele passa meses fora de cada vez, e eu achei que conseguiria lidar com isso. No começo, eu sentia tanta saudade dele que chegava a doer fisicamente.
Mas depois de um tempo, a saudade simplesmente... parou. Quando ele voltava para casa, eu ficava feliz em vê-lo, mas aquela faísca que costumávamos ter? Tinha sumido.
Eu nunca disse isso a ele. Talvez eu devesse ter dito.
A máquina de café liga com um zumbido, enchendo o ar com aquele cheiro forte e familiar. Mas, hoje, há algo nisso que revira o meu estômago. Franzo o nariz e, em vez disso, pego alguns biscoitos para o Lester.
“Você é incrível, Charlotte”, Lester diz quando coloco tudo na sua mesa. Ele não tira os olhos do computador. “Qual blend você escolheu?”
Eu rio e balanço a cabeça. “Apenas prove. Você deveria ser capaz de identificar os sabores que vende.”
Ele me lança aquele olhar travesso que aprendi a adorar no meu chefe. Lester administra a Blackwell Coffee & Tea, e ele é honestamente o melhor chefe que já tive. Gentil, engraçado e ele realmente se importa com os seus funcionários.
Ele dá um gole e fecha os olhos, deixando o café descansar na língua. Um sorriso se espalha pelo seu rosto. “Grãos Robusta da América do Sul. Torra escura. Bem amargo, do jeito que eu gosto.”
Bato palmas devagar e sorrio. “Você é incrível, Lester.”
“É um dom”, ele diz com uma piscadinha.
Quando termino de arrumar minha mesa, estou exausta. A caminhada de trinta minutos até em casa costuma me ajudar a relaxar, mas hoje cada passo parece que estou me arrastando na lama.
Meu corpo parece vazio, como se alguém tivesse sugado toda a minha energia. E, toda vez que passo por um restaurante, uma onda de náusea me atinge com tanta força que preciso parar e respirar fundo.
Eu estou me sentindo estranha há dias. Fico esperando acordar com alguma virose estomacal — metade do escritório teve uma recentemente. Mas, ao passar pela farmácia na Quinta Rua, eu paraliso.
E se não for uma virose?
Minha mente começa a acelerar, ligando pontos que eu não quero ligar. Quando foi a minha última menstruação? Quando foi a última vez que o Harrison e eu... Ai, meu Deus. Foi algumas semanas antes de terminarmos, logo antes dele partir para a sua última missão.
Não. Não, não, não.
Continuo andando, tentando me convencer de que estou sendo paranoica. Mas, quanto mais eu penso sobre isso, mais tudo faz sentido. A exaustão, as náuseas, o jeito que tenho olhado obsessivamente o meu celular atrás de mensagens do Harrison.
Eu me viro e volto para a farmácia.
Trinta minutos depois, estou sentada no meu sofá encarando um teste de gravidez. Cinco minutos parecem cinco horas. Eu o coloco na mesa e começo a andar de um lado para o outro na sala.
Nós sempre fomos tão cuidadosos. Sempre. Mas aquela vozinha no fundo da minha cabeça continua sussurrando que eu estou ignorando os sinais há semanas.
É por isso que eu estava tão desesperada para ter notícias do Harrison? Porque alguma parte de mim já sabia que as nossas vidas estavam prestes a ficar complicadas de novo?
Olho para o relógio. Mais um minuto. Mas eu nunca fui boa em esperar.
Volto para a mesa de centro e pego o teste com as mãos trêmulas. Lentamente, eu o viro para ver a pequena janela.
Positivo.
Jogo o teste no lixo — a tampa se fechando num estalo logo em seguida — e vou para o meu quarto, onde desabo na cama. Jogo os braços por cima da cabeça e grito.
Normalmente, sou alguém que consegue controlar as emoções — definitivamente não sou uma pessoa de pavio curto. Mas, neste momento, não consigo segurar os gritos de frustração, então eu apenas coloco tudo para fora.
Ah, merda, o que eu devo fazer? O que eu devo fazer? Eu não sei. Esta gravidez não poderia ter vindo numa hora pior. Isso não é o que eu esperava.
Eu sempre quis ser mãe. Eu sabia que era isso que eu queria para o futuro. Mas eu queria isso num relacionamento estável, com o amor da minha vida — não com o meu ex, que praticamente nunca está em casa.
Felizmente, ainda tenho um bom contato com o Harrison, então estou convencida de que vamos resolver isso juntos. Limpo as bochechas e decido mandar outro e-mail para o Harrison, mas desta vez com uma mensagem que ele provavelmente não vai estar esperando.
Pego o meu celular e decido ligar para ele primeiro, mas cai direto na caixa postal e decido não deixar mensagem.
Alguns minutos depois, escrevo um e-mail curto, mas impactante:
Querido Harrison, espero que você esteja bem. Sei que você não respondeu ao meu e-mail anterior, e espero que saiba que eu não o incomodaria se não fosse urgente. É porque acabei de descobrir que estou grávida. E, pensando bem, acho que já estou com seis semanas, com certeza. Não tenho certeza, e ainda não foi confirmado pelo ginecologista. Mas o teste deu positivo... Então aqui estou eu. Eu queria avisá-lo imediatamente, e vou atualizando você por aqui. E espero que a gente possa conversar sobre isso em breve. Cuidem-se por aí, fiquem seguros, e me dê um sinal de vida em breve. Com amor, Charlotte.
Depois de enviar, entro num banho quente e deixo as lágrimas rolarem. Muitos pensamentos passam correndo pela minha cabeça, e eu não consigo mais filtrá-los direito. Sei que eu realmente deveria comer algo antes de dormir, então faço um sanduíche com o que ainda tem na geladeira e como com relutância.
Finalmente são oito e meia quando vou para a cama — um pouco cedo, mas estou exausta. E não demora muito até eu cair num sono profundo.
Na manhã seguinte, aperto o botão soneca por tempo demais. Depois da terceira vez, olho a hora e vejo que já são oito horas.
“Merda”, resmungo enquanto me levanto da cama e me arrumo para o trabalho. Quinze minutos depois — um recorde pessoal.
Fecho a porta da frente e caminho até o carro. Vinte minutos depois, passo pelas portas do escritório da Blackwell Coffee and Tea.
Pego o elevador para o nono andar e sigo pelo corredor até a minha sala. No caminho, sou cumprimentada por vários colegas. Eu sorrio para eles, mas parece forçado — eu realmente não estou com vontade de sorrir agora.
Antes de ir até a sala do meu chefe, passo primeiro na minha para pegar a agenda de hoje e ligar o meu computador. Com um tablet na mão, vou até a sala do meu chefe, Lester. Rolo a tela da agenda e vejo, para o meu alívio, que ele terá um dia relativamente tranquilo hoje.
Secretamente, estou muito grata por isso, porque não sei o quanto vou conseguir me concentrar hoje.
“Bom dia, Sr. Blackwell”, cumprimento o meu chefe ao entrar, e ele levanta os olhos do seu notebook.
“Bom dia, Charlotte. Me diga qual é o estrago de hoje”, ele diz com um pequeno sorriso, e eu me sento de frente para a sua mesa para atualizá-lo.
“Um dia relativamente tranquilo hoje”, digo com uma piscadinha, e ele suspira de alívio. Nós rimos, e ele me dá a sua atenção total.
“Você tem uma reunião às dez horas com Henry Lockett, o milionário britânico que gostaria de investir na empresa com a esperança de expandi-la para a Grã-Bretanha”, começo a dizer, e Lester geme e revira os olhos de forma dramática.
“Homem terrível — acha que pode comprar qualquer coisa... Enfim, continue”, ele diz, e eu dou uma risadinha da sua resposta dramática.
“Às doze horas, você tem um almoço com o Joshua. Diz aqui que ele vai trazer o almoço. Depois, às duas da tarde, você tem uma reunião sobre as novas embalagens dos grãos de café, e às quatro horas tem uma reunião de diretoria.”
Dou uma olhada na agenda para ver se deixei passar algo, mas é só isso — um dia relativamente tranquilo, sem muitas reuniões. Isso significa que podemos finalmente adiantar alguns trabalhos atrasados.
Lester esfrega o rosto com as mãos, e dá para ver que ele parece exausto. Ele tem feito muito isso ultimamente.
“Você está bem?”, pergunto com cuidado, e ele olha para mim com os olhos cansados.
“Ah, sim! Sim, eu acho que preciso acordar um pouco”, ele diz, e eu rio.
“Somos dois, então. Me avise se algum dia precisar que eu bloqueie a sua agenda por um dia. Talvez uma folga não fosse uma má ideia”, digo com uma piscadinha, e ele concorda com a cabeça, abrindo um pequeno sorriso.
“Isso seria ótimo, Charlotte. Mas, talvez, eu pudesse tomar uma xícara de um café bom e forte primeiro?”, ele pede, e eu me levanto, apontando um dedo para ele.
“Eu sei exatamente de qual você está falando”, digo, saindo da sua sala e indo até o canto do café para preparar um café preto e forte.
Exatamente às 10 da manhã, recebo uma ligação avisando que Henry Lockwood está subindo no elevador. Eu aliso as minhas roupas e caminho até o elevador para recebê-lo.
“Bom dia, Sr. Lockwood. Eu sou Charlotte, a assistente do Sr. Blackwell”, digo gentilmente enquanto ele sai do elevador, e nós apertamos as mãos.
“Henry Lockwood, muito prazer”, ele diz com um sotaque britânico profundo, e eu caminho com ele até a sala do Lester.
“Sr. Blackwell, o Henry Lockwood está aqui para a reunião das dez horas”, digo profissionalmente, e Lester acena para que ele entre.
Deixo os homens conversarem e continuo com o meu trabalho.
Uma hora depois, Henry sai da sala do Lester, acena se despedindo e me agradece pelo café e pelos biscoitos deliciosos. Continuo trabalhando nas anotações das reuniões de ontem até o Joshua passar pela minha sala e me dar um oi.
O Joshua sempre tem aquele andar todo confiante e o seu clássico sorriso descontraído. Ele sempre me lembra um filhote de Labrador — pura energia e entusiasmo.
“Oi, Joshua. O que traz você aqui?”, pergunto com um sorriso, e ele revira os olhos e vem se sentar na minha mesa. Dou a ele um olhar severo, e os seus olhos voam para os papéis em que ele está sentado.
“Minhas desculpas, milady. O meu pai está aí?”, ele pergunta, olhando de relance para a sala do pai, e eu concordo com um sorriso.
“Ah, você também quer almoçar?” Ele levanta uma sacola grande e cheia de comida, e o cheiro me atinge imediatamente.
Meu rosto fica pálido, e eu tenho que engolir em seco várias vezes para não vomitar.
“Não, obrigada”, consigo dizer com um sorriso forçado, e ele dá de ombros, caminhando até a sala do pai.
“Se mudar de ideia, já sabe onde estamos. Ah, é! O James também vem, mas não conte para o papai”, ele diz, levando com ele aquela sacola de comida com um cheiro horrível.
Consigo me recompor e vou até a área do café para pegar um copo de água, torcendo para que isso acalme o meu estômago. Fico olhando para o nada, pensando no teste positivo e em quais passos eu preciso tomar nos próximos dias.
Alguém limpa a garganta, e eu sou despertada dos meus pensamentos.
“Desculpe, não queria assustar você”, uma voz grave diz, e quando os meus olhos recaem sobre o homem na porta, o meu coração dispara.

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